Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
24 de Novembro de 2010

 

 

 

publicado por Lacra às 07:00
23 de Abril de 2010

Não é mendigo, nem caixeiro-viajante, nem traficante de droga. É jornalista. Já esteve em sítios onde muitos de nós nunca haveremos de ir. Agora, como muita gente já sabe, anda por aqui fazendo reportagens que publica na Internet, “sem recibo”

 

Para Nuno Ferreira andar por aqui, fazer reportagens no país que percorre com as solas dos sapatos desde há dois anos, é igual a fazer outras reportagens que estão inscritas na sua carreira como a “Route 66 a Estrada da América” ou “A Índia de Comboio”, pelas quais ganhou prémios e que, para certa geração de outros jornalistas, foram “marcantes”.

“Uma reportagem é uma reportagem, seja sobre o que for”, afirma. Preferia não falar desse sentimento tão nacional que encontra nas redacções um solo fértil, mas como fazemos a pergunta vai dizendo que, nessa altura, em que fazia essas reportagens, sofreu de “inveja”. “Já lá havia aquela categoria do grande repórter. As pessoas não se interessavam em me perguntar como tinha sido a minha viagem. Só queriam saber se já era grande repórter ou se não era”, conta-nos.

Entretanto, e apesar dos prémios de jornalismo que recebeu, nunca foi promovido e por vezes sujeitava-se a ganhar menos para poder fazer o que gosta: reportagens. Chamavam-lhe “príncipe da grande reportagem”, ou “caixeiro viajante”. Era “na brincadeira”, mas acabou por pagar o preço das piadas. Como forma de resposta, chegou a ter um cartão na secretária a dizer: “fazem-se pequenas, grande e médias reportagens”.

Quando propôs ao Expresso, há dois anos, fazer crónicas a partir do seu percurso por Portugal a pé foi também porque nessa altura estavam muitos outros jornalista a propor reportagens em destinos distantes e a esquecerem-se da existência de um Portugal que só aparece nas notícias quando há incêndios ou outras catástrofes.

No início, as crónicas foram publicadas na Revista Única do Expresso. Depois, a Revista foi reformulada e ficou sem as crónicas. Actualmente mantém um blog na Internet (http://portugalape.blogspot.com), sem qualquer patrocínio.

O facto de ter deixado de ter quem lhe pague as reportagens não foi motivo para desistir da viagem. Mesmo com interrupções decidiu continuar. Já tinha feito parte do caminho e reunido muito material que, no final, pensa publicar em livro.

Faz todo o percurso a pé. Estabelece um poiso temporário em determinados locais e depois desloca-se de táxi para o ponto onde interrompeu a caminhada. Quando termina a jornada volta a chamar o táxi, do local até onde andou. Isso encarece bastante a viagem.

“Não é fácil ser freelancer em Portugal”, confessa. “Neste momento não tenho apoio, mas considero-me jornalista na mesma, é aquilo que eu sei fazer. É como outra profissão qualquer, um carpinteiro não sabe fazer outra coisa”, explica, sublinhando que os jornalistas têm que ser “resistentes e persistentes”.

Começou a sua actividade jornalística no final da década de 80. Na altura, quando nasceu O Independente e O Público, “havia dinheiro e tive a sorte”. Agora não há. “Quando saí do jornal diário (O Público), já não havia dinheiro para ir a lado nenhum e não havendo dinheiro a qualidade do jornalismo perde-se”, afirma.

Nesse jornal conheceu jovens repórteres com qualidade, que trabalhavam três meses de graça, “como cães”, e depois iam embora. “Se calhar hoje eram excelentes jornalistas e tiveram que desistir. Alguns estão a trabalhar em call centers”.

Para um jornalista que anda de mochila às costas, sem uma grande máquina fotográfica a parecer câmara de filmar, nem um carro com letras, nem sempre a recepção é a melhor. A princípio as pessoas desconfiam, algumas nunca chegam a acreditar que é jornalista e já se confrontou com episódios caricatos como perguntarem-lhe se o que levava na mochila era droga. Mas, nesta longa travessia, também já fez amigos, pelo menos temporários, que lhe dão indicações sobre os melhores percursos ou, depois de acreditarem que é jornalista, lhe dão alguma matéria-prima para escrever.

 

Portugal “assombrado”

 

Anda ao sol, há chuva e ao vento. Tem visto a beleza do território português, mas também a tristeza de um caminho que segue rumo à falta de vida humana; tem percorrido Portugal a pé, sobretudo pelo interior. Partiu de Sagres, terra de onde se sente o apelo do “novo mundo”, e chegou a Trás-os-Montes em Janeiro passado. Resolveu fazer o caminho ao contrário. Desta vez não procurou o além mar, mas tudo aquilo que acabou por ficar para trás, o tal conceito, que trazia “na mochila” de muitos anos de jornalismo em jornais nacionais, como o de “Portugal profundo”; um país que não fica algures no fundo do Atlântico, fica aqui, soterrado no pedaço do rectângulo que confronta com Espanha.

Nestas terras sente a tristeza do abandono, a assombração da morte das actividades humanas, a falta de gente (aquilo, a que se chama “desertificação”). “Fico triste de saber que muita gente está para fora. Fico triste quando caminho, e é um prazer caminhar em paisagens tão bonitas, e de repente chegar a uma terra, a povoações com grande potencial turístico, como Outeiro, e não encontrar quase ninguém”.

Em Guadramil (“atormentou-me o silêncio daquelas ruelas”, escreveu Nuno no blog) foi pior, passou e só viu três sinais de vida, além das chaminés a fumegar: um homem a perguntar-lhe se queria boleia de tractor, uma velhinha a guardar galinhas e uma carrinha dos CTT. 

Nuno ferreira defende outra coisa, outro modelo de desenvolvimento para o país, uma alternativa à concentração urbana, qualquer coisa que reerga a casas caídas e as encha de vida e de gente. “A agricultura morreu, tem que haver uma alternativa e não é a urbana. Ando a atravessar um país vazio. Não devia ser, mas é”, diz.

Certas zonas estão piores que outras e a falta de pessoas não a sentiu apenas em Trás-os-Montes. “Há zonas que dentro de 15, 20 anos não vão ter ninguém”, sublinha. É que este modelo de desenvolvimento favorece apenas alguns e, se não há dinheiro para apostar em outro, que poderia passar pelo turismo rural, é “porque as pessoas não estão interessadas que haja. O país está dominado por um lobby em que o campo não interessa para nada, o que interessa é a construção”. Ou seja, se for preciso fazer um Campeonato do Mundo, ou outro Campeonato da Europa de futebol, “vai aparecer dinheiro, para mais redes viárias e mais coisas. Para o campo não há dinheiro, nem para o turismo rural. Em Portugal é assim”. Para Nuno Ferreira, que fez a linha do Tua a pé, também não são as barragens, mesmo que tenham componente de rega, que vão contribuir para combater “o deserto”, o tal deserto humano, o Portugal mal assombrado.

 

Pequena biografia


Segundo a informação que disponibiliza no blog, Nuno Ferreira é natural de Aveiro, onde nasceu em 1962. Licenciou-se em comunicação social na Universidade Nova de Lisboa. Foi colaborador permanente do semanário Expresso de 86 a 89, ano em que ingressou nos quadros do jornal Público, onde se manteve até Setembro de 2006. Nos últimos 20 anos fez todo o tipo de reportagens de cariz social, primeiro na revista do Expresso e mais tarde em diversas secções do Público (Sociedade, Local e Pública). Neste último, manteve uma crónica satírica intitulada “Ficções do País Obscuro” e escreveu sobre música popular americana. Entre outros prémios, recebeu em 96 o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube de Jornalistas do Porto com o trabalho “Route 66 a Estrada da América”, que lhe valeu também uma menção honrosa da Fundação Luso-Americana. Um ano mais tarde, recebeu o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube Português de Imprensa com o trabalho “A Índia de Comboio”. Em 2007 publicou conjuntamente com Pedro Faria o livro "Ao Volante do Poder" na editora Bertrand. Publicou crónicas do "Portugal A Pé" na Revista "Única" do "Expresso" entre Fevereiro e Setembro de 2008.

 

Fonte: Mensageiro Notícias/Ana Preto

Fotos com Direitos Reservados

12 de Abril de 2010

António Câmara, Prémio Pessoa 2006, falou ao DN sobre o futuro da comunicação, tema de conferência recente na Culturgest.

"Em 2050 teremos mais informação, mais formas de interagir uns com os outros, mas estaremos mais sós e, provavelmente, mais estúpidos." É assim que António Câmara, director executivo da YDreams, vê a comunicação nas próximas décadas. "As grandes mudanças provocadas pela tecnologia vão ser nas relações humanas", assume.

A possibilidade de "sentir tudo de todas as maneiras", como um dia escreveu Fernando Pessoa, chegará brevemente ao ciberespaço com o desenvolvimento de tecnologias multissensoriais, em que não se usará apenas a visão e a audição mas também o tacto , o olfacto e o paladar. "Nos próximos 20 anos vamos poder estar em casa sozinhos a interagir com amigos distantes como se estivéssemos na mesma sala. Ver um jogo de futebol na televisão e fazer que o nosso grito se ouça no estádio", diz o especialista.

"Acredito que as transformações mais marcantes ocorrerão na televisão, que há 40 anos não sofre evoluções tecnológicas. Agora estamos à beira da fusão entre TV e computador, que vai alterar todo o panorama televisivo", continua.

O fim dos jornais em papel, que tantas vezes tem sido anunciado, é algo em que António Câmara não acredita. "O formato em papel não vai acabar, o que vai mudar é o tipo de papel, que passará a ter propriedades interactivas, em que podermos ter gráficos animados, por exemplo. É uma via cara, o que tornará os jornais e as revistas em artigos de luxo, um nicho de mercado destinado aos ricos."

A comunicação com animais ou a reprodução de todo o tipo de conteúdos em materiais como cortiça, plástico, vidro são outras das possibilidades apontadas pelo director da YDreams.

Apesar de nos dirigirmos rapidamente para o digital, "não deixaremos de ter plataformas analógicas, porque a nossa essência humana é analógica", admite ain- da. "Os sistemas de comunicação pessoal, como os telemóveis ou iPhones, poderão fornecer informação vital e ambiental, recolhida em tempo real por sensores implantados em cada pessoa."

E como será então a nossa vida quotidiana em 2050?

Viveremos dentro de uma ou mais redes sociais, com uma quantidade brutal de informação inútil para gerir, diz ainda António Câmara, que admite "ter muitas reticências" em relação a estas novas formas de socialização como o Facebook.

"A nível profissional, os danos são enormes, cada pessoa perde imenso tempo de trabalho devido a essas redes. Estamos sempre a ser interrompidos, convocados para uma informação que não nos serve para nada e afastam as pessoas do contacto presencial."

Mas é nas novas formas de cidadania e vivência democrática que Câmara se mostra mais optimista: "As sociedades tenderão a ter formas de decidir mais distribuídas e haverá participação maior dos cidadãos. Essencialmente o poder deixará de ter um centro fixo e distribuir-se-á de forma mais aleatória por vários sectores, à imagem de uma estrela do mar."

O futuro não será, portanto, um lugar estranho mas também não será um lugar perfeito.

 

Fonte: DN

30 de Maio de 2009

O jornal escolar "Outra Presença", da Escola Secundária Abade Baçal, assinala hoje 50 anos de existência. Para comemorar o dia, os alunos e professores envolvidos no projecto, bem como toda a comunidade escolar, convidaram o jornalista Daniel Catalão para falar sobre a profissão do jornalista.

O jornal "Outra Presença" é feito inteiramente por alunos e professores da Escola Abade Baçal que apenas recorrem a uma tipografia para a sua impressão. Recorde-se ainda que este jornal escolar já foi premiado duas vezes pelo jornal Público.

 

07 de Fevereiro de 2009

 “Como cidadão, quero ser o homem comum que compartilha activamente dos momentos atribulados da colectividade a que pertence; como homem de letras, quero cumprir o meu dever de escritor, não atraiçoando, quer por conivência, dando um tom de compromisso à voz revoltada, quer por omissão, ficando neutro em casa.” Miguel Torga, 1951 Foi a ler a universalidade e coragem indelével de Miguel Torga que decidi que estas minhas palavras também não poderiam ficar em casa.

Num início de ano em que todos utilizam a torto e a direito a crise económica mundial e nacional para suporte de todas as conversas e justificação de todos os males, que o papão de 2009 vai trazer, percebi que há outras crises que esta pode esconder – crise de valores essenciais que não podem ficar por detrás do biombo, sobretudo, se atendermos ao facto que a conhecida organização norte-americana “Freedom House” acaba de publicar num circunstanciado relatório e que revela que o ambiente e a liberdade de expressão dos jornalistas se agravou no mundo inteiro! Mas mais grave é o facto de o mesmo relatório revelar que “a melhor situação ainda é a da Europa ocidental, apesar do declínio de liberdade em Portugal, Malta e Turquia.” Assim mesmo!

Na verdade este é um assunto sobre o qual se especula muito em Portugal e sobre o qual poucas atitudes se tomam. Se há países em que os Media são considerados o quarto poder, capazes de assumir as rédeas da verdadeira opinião pública, outros há, como Portugal, em que a comunicação social se assume resignadamente como o quarto do poder! Às vezes mesmo como a meretriz ao serviço do poder, e outras ainda, o que é mais grave, como a prostituta subserviente ao chulo do poder. É claro que nem sempre é assim.

Ainda há muitos homens livres, jornalistas capazes de honrar a sua carteira profissional, e órgãos de comunicação social cônscios e dignos do seu estatuto editorial, mas o contrário também é verdade. De resto, são poucos os que se atrevem a escrever em nome da verdade, chamando as coisas pelos nomes, ou, dizendo e escrevendo as realidades que incomodam os poderes instituídos, ou põem em causa o lustro a que os políticos e os administradores das instituições estão habituados a ter em cada dia, semana, ou mês que as suas carinhas larocas aparecem na dita comunicação social.

Quando assim acontece, os nossos políticos de pacotilha põem ao serviço os seus sequazes para executar a repreensão devida. Há de tudo e para todos os gostos, e quanto mais se caminha para o interior pobre do nosso país, maior é a dependência dos órgãos de comunicação social relativamente ao poder que a sustenta – há os que existem para servir o partido, há os que existem para servir os amigos, há os que existem para servir o director e seus prosélitos, e há ainda os que existem para aplaudir os caciques locais ou regionais. Se assim não se comportarem, e felizmente ainda os há nessa luta, os “senhores” do poder zangam-se, puxam dos efémeros galões e ameaçam com a ausência de apoio aos directores. Entretanto, estes revoltam-se e põem os jornalistas na formatura para lhes lembrar que a liberdade é apenas um eufemismo mais ou menos perverso e inimigo da sobrevivência.

Antes de Abril, ao tempo do lápis azul da censura, a liberdade de expressão era proibida de sair à rua, riscada das páginas, mutiladas antes de ver a luz do dia. Hoje, mais de três décadas depois da liberdade política ter chegado ao Portugal do século XXI, a liberdade de expressão sai para a rua sempre que os jornalistas querem, mas, a maior parte das vezes, com a condição de servir uma clientela, de não negar favores a outra, ou de apenas aplaudir os clientes do poder, sem direito a apontar debilidades ou impotências, muito menos tocar nos clientes que pagam a sobrevivência do negócio, ou então, sujeita-se a levar pancada de criar bicho, tal como qualquer prostituta de rua que se preze.

Por muito importante e poderosa que seja a força do dinheiro, por muito séria que deva ser considerada a crise económica mundial, antes, durante e depois dela, a crise da liberdade vai continuar a existir, as prostitutas de rua também, e a coincidente má sorte de ambas deverá, supostamente, manter-se. Madrugada adentro dou comigo a pensar em Torga, a vê-lo encher-me a alma de coragem, e a pensar que sorte a minha por ser pobre e ainda ter a liberdade de poder escrever num órgão de comunicação social que se quer livre.

publicado por Lacra às 06:12
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