Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
14 de Outubro de 2010

João Castro, (foto em baixo), e Francisco Lopes, (foto em cima) foram chefes de estação em Bragança, numa altura em que os comboios ainda faziam parte do quotidiano da região. Num olhar voltado para o passado, estes dois ferroviários evocam memórias de uma linha de caminho de ferro que há muito parecia ter o seu destino traçado

 

Não lhes coube a eles a missão de fechar as portas da estação de Bragança pela última vez, mas ambos viveram esses tempos intensamente. Um deles, João Castro, hoje com 93 anos, foi mesmo um dos maiores contestatários contra o encerramento do troço entre Bragança e Mirandela, tendo protagonizado muitas lutas e fazendo chegar, ao Governo de então, cartas que davam conta do descontentamento geral da população, e dos ferroviários em particular.

Já Francisco Lopes tinha, na altura, assumido o cargo de inspector, em Mirandela, trabalho de grande responsabilidade que o fez calar para si o descontentamento e aceitar aquela que era já uma decisão tomada.

Passados  quase 20 anos do encerramento da Linha em Bragança, é com tristeza e “muitas saudades” que estes dois ferroviários olham para trás. Ambos fizeram carreira como ferroviários. Começaram por trabalhar no caminho-de-ferro como “praticantes” e foram subindo na carreira até chegarem a chefes de estação. Francisco Lopes, mais novo que João Castro uns bons anos, alcançou mesmo o posto de inspector, o cargo mais respeitado de então. Diz que o amor pelos comboios já nasceu consigo. O seu pai era chefe de estação em Macedo de Cavaleiros e ele viveu sempre “em cima dos carris”.

Foi como factor que se sentiu mais realizado. Gostava do movimento, da venda de bilhetes, do despacho de mercadorias, da contabilidade e de toda a interacção que o comboio tinha com a cidade.

 Não foi assim há tanto tempo que, não havendo as facilidades de hoje em dia, os bancos despachavam por comboio a sua documentação, recorda. Da estação partiam comboios com três carruagens lotadas de passageiros que em Mirandela tinham de ser reforçadas. E quando partiam comboios especiais com tropa, o povo juntava-se pelas estações fora a despedir-se.

Hoje, Francisco diz sentir muita mágoa quando vê tudo abandonado e a cair aos pedaços. Bragança, como região, perdeu gente, perdeu movimento e todo o esforço que se fez, no passado, para tentar desenvolver esta periférica terra parece ter sido em vão. Terá faltado o investimento e a vontade política, pelo menos assim o entendem estes dois ferroviários.

“O comboio era muito lento, tão lento que a 30 ou 40 km/h era perigoso circular na linha! Deixaram deteriorar de tal maneira a via que era impossível atingir velocidades de 70 ou 80 km”, notou Francisco Lopes.

Este desinvestimento não era, no entanto, recente. João Castro recorda que quando se reformou, aos 67 anos, já o comboio “não era nada”. Apesar de haver passageiros em quantidade e muitas mercadorias para despachar, as coisas não funcionavam da melhor forma. Com o tempo, algumas estações passaram a entrar no chamado “regime de eclipse”, ou seja, fechavam e deixavam as estações colaterais ligadas. Nas passagens de nível, a partir de certa hora, deixava de haver guarda. Isto significava que o comboio tinha de parar para abrir a passagem de nível e depois tinha de voltar alguém para fechar a mesma passagem.

“Isto implicava grandes atrasos”, comentou Francisco Lopes, que recordou que, na altura, chegou a vir a Portugal uma brigada de peritos franceses para estudar os atrasos do comboio, uma vez que na Europa não havia demoras tão pronunciados.

Vasculhando jornais antigos da época, é curioso notar que já em 1980, o deputado Eleutério Alves, eleito para a Assembleia da República, afirmava numa intervenção, que a CP tinha diminuído as viagens de comboio entre o Tua e Bragança, verificando-se saturação em mercadorias nas estações do Tua. “Acumulavam-se produtos essenciais que não chegavam a horas ao destino”, dizia Eleutério Alves.

 

 

Em 1987, o então presidente do Conselho de Gerência da CP afirmava, numa entrevista ao Comércio do Porto, que a CP “não devia hesitar em propor ao Governo o encerramento das vias estreitas”, com algumas excepções no Norte Litoral. No mesmo ano, o Mensageiro de Bragança, acusava a CP de abandonar a Linha do Tua, colocando pouca mão-de-obra na sua manutenção. Na altura, segundo o jornal, para 134 quilómetros de linha havia 25 operários, três subchefes e dois chefes.

A importância da linha era sublinhada por todos os quadrantes da sociedade e fazia-se notar que “quando Bragança ficou isolada pela neve, o comboio andou sempre!”. Quando, em 1987, Mário Soares, Presidente da República, visita a região, o povo saiu a rua com cartazes a pedir a manutenção do comboio.

Não surtiram grande efeito as mobilizações feitas, pois, na década de 90, a CP começou a colocar autocarros de apoio às composições ainda em circulação.

O Mensageiro dá conta da revolta da população. Na aldeia de Fermentãos, por exemplo, chegaram a tentar retirar os pneus dos autocarros e só a intervenção da GNR parou o protesto.

 

 

Este terá sido o princípio de um fim que há muito estaria anunciado. Francisco Lopes, confessa que, anos antes, quando desempenha funções de factor no Romeu e “ainda nem sonhava chegar a inspector”, teve oportunidade de ver um diagrama onde já estava previsto o encerramento da linha. Quando, por fim, a decisão foi tomada, já ele estava no cargo de inspector.

A data marcada seria o 31 de Dezembro de 1991. No entanto, um descarrilamento em Sortes precipitou o fim da linha. Uma raiz de giesta seca esteve na origem do acidente, do qual resultaram apenas feridos ligeiros.

“Nós dizíamos que havia três coisas que suportavam o peso de uma locomotiva: o corno de cabra, o diamante e a raiz de giesta seca. Ali foi a raiz da giesta seca. A oscilação que provocou foi o suficiente...”, recordou Francisco Lopes.

Como inspector, Francisco esteve no local e pode constatar a degradação a que a via tinha chegado: “os parafusos das traves de madeira podiam ser retirados com os dedos, como acontece hoje em dia”.

Notificada do acidente, a CP dá, então, ordens para recolher o material da via e suspender a circulação de comboios até ordem em contrário. Francisco já sabia que não haveria ordem em contrário.

As populações locais não tiveram outro remédio que não fosse aceitar as carreiras de autocarros alternativos ao comboio, mas, antes de acederem, houve protestos e ameaças de cortes de estradas. Nos Cortiços, os populares chegaram a apreender quatro autocarros como forma de mostrar o seu descontentamento.

João Castro relembra esses tempos com amargura. “Eu contestei sim...e eles deram bem importância a isso!”. Já estava reformado, mas não queria que a sua terra perdesse aquele que continua a considerar como “o melhor meio de transporte”e, por isso, escreveu cartas ao Presidente da República, ao ministro dos transportes, aos deputados eleitos pela região...

“Eu fazia os ofícios e mostrava ao Guedes de Almeida para ver se estava tudo bem, mas que adiantava? O Duarte Lima foi um dos que recebeu cartas minhas, enquanto deputado. Nunca me respondeu. Uma vez encontrei-o junto à Torralta e perguntei-lhe, mas ele desculpou-se que tinha muito trabalho”, contou.


 

 

 

“Noite do roubo”

A grande machadada final que ficará sempre marcada na memória colectiva é a “fatídica noite do roubo dos carris”, em Outubro de 1992. Na noite de 13 para 14 de Outubro, a CP, autorizada pelo Governo, manda silenciar os telefones e as comunicações de rádio e faz transportar, por camiões, escoltados pela GNR e PSP, o que restava das carruagens e locomotivas que estavam na estação de Bragança. Houve insultos e protestos, mas de nada adiantou.

João Castro recorda bem esses momentos, pese embora não tivesse estado presente. “O Guedes de Almeida não quis ir chamar-me a casa e disse-me porquê. É que eu era homem de me deitar no meio da estrada para que os camiões não passassem e ele não quis aborrecer-me”.

Já Francisco Lopes tinha sido chamado a Lisboa para uma reunião. Não estava em Bragança, nem podia ele impedir a decisão, mas, durante vários anos, ouviu do povo acusações de todo o tipo.

“Eu ia ouvindo algumas piadas, mas esclarecia sempre as pessoas da minha intervenção no assunto. Sempre fui contra o encerramento, a 100 por cento, mas não estava nas minhas mãos impedir a decisão, porque se estivesse...”.

Decorridos quase vinte anos, as reivindicações pela abertura da Linha do Tua entre Bragança e Mirandela continuam a fazer capas de jornais e mobilizar centenas de pessoas. Hoje, caso houvesse uma decisão favorável, o investimento seria bem maior, implicaria, quiçá, um novo traçado e o prolongamento até Espanha, como terá previsto um projecto do Governo de Salazar.

No entanto, nem João Castro, com os seus 93 anos, muito menos Francisco Lopes, acreditam nessa possibilidade. A aposta no transporte rodoviário parece ter ganho para todas as outras e, hoje, são os autocarros que tomam o lugar da antiga estação de Bragança.

 

Fotos: Direitos Reservados

31 de Janeiro de 2010

A Linha do Tua é uma linha de caminho-de-ferro de via estreita, que liga a estação da Foz do Tua, inserida na Região do Douro Vinhateiro – Património da Humanidade (UNESCO – 2001), onde passa a Linha do Douro, à cidade e capital de distrito, Bragança. É uma obra-prima da engenharia portuguesa com 120 anos de História, cujo arrojo permitiu a passagem dos comboios pelos rochedos intransponíveis do vale do Tua e pelas serras do Nordeste Trasmontano. Movimenta todos os anos dezenas de milhares de turistas que aqui vêm de propósito para visitar o vale e viajar no comboio, em união com o turismo no Douro – com a reabertura da Linha do Douro à Espanha serão ainda mais – e milhares de outros passageiros, sobretudo locais, que não dispõem de outro meio de transporte para além do comboio, para as suas deslocações diárias – escola, centro de saúde, feiras.
Não obstante todo o valor que a Linha e o Vale do Tua representam a nível nacional e internacional, o Governo pretende impor, contra o parecer de vários organismos idóneos e contra o bom senso que a todos os governantes é exigido, com ilegalidades e uma celeridade imprecedentes, a construção de uma barragem na foz do Tua, cujas cotas projectadas irão submergir parte da Linha do Tua, deixando-a sem ligação à Linha do Douro, vital à sua sustentabilidade e manutenção como eixo principal de comunicação da região.

 

A Barragem do Tua significará o seguinte para a região Trasmontana:

•Destruição do último caminho-de-ferro do distrito de Bragança, o pior de todos em níveis de transportes públicos e mobilidade dos seus habitantes;


•Destruição de olivais e de vinha da Região Demarcada do Douro, directamente por submersão, e indirectamente por uma área mais vasta com o aumento dos níveis de humidade, calor e gases com efeito de estufa;


•Destruição das Caldas de Carlão e de São Lourenço;


•Criação nula de postos de trabalho. Enquanto durar a construção da barragem, esta será maioritariamente suportada por mão-de-obra que não é local mas sim trazida de fora por subempreiteiros, à semelhança de outras obras deste tipo. Concluída a obra, os postos de trabalho desaparecerão da região, sendo a conservação e gestão da barragem feita por uma equipa de técnicos que não são da zona, e a barragem será controlada a partir da Barragem de Bagaúste;


•Serão construídas mais linhas de alta tensão, com todos os problemas de saúde a si associadas;


•Constituirá mais um ponto de fuga de riqueza da região, uma vez que as empresas que vão usufruir da construção e exploração da barragem não são sedeadas em nenhum dos concelhos atravessados pelo Rio e pela Linha do Tua.

 

Subscrevemos com esta petição a implementação das seguintes medidas:

 

1.Melhoria do serviço na Linha do Tua, com mais circulações e melhores ligações com a Linha do Douro, horários ajustados às necessidades da população local, material circulante com melhores condições (que incluam mais espaço para bagagens, mais lugares sentados, e WC, pois são viagens que podem ir até 2 horas), e velocidade comercial superior, tornando-a mais competitiva;
2.Classificação da Linha do Tua como Monument

o Nacional, dadas as suas características de engenharia portuguesa únicas, e de envolvente Humana e Natural no Vale do Tua;


3.Reabertura da Linha do Tua entre Carvalhais e Bragança;


4.Construção de uma ligação ferroviária entre Bragança e a Puebla de Sanábria, para permitir a ligação às redes convencional e de alta velocidade espanholas;


5.Regresso do material histórico ferroviário relevante à região, nomeadamente a torre de água de Bragança, lanternas e relógios das estações, e reabertura rápida e em condições condignas do Museu Ferroviário de Bragança;


6.Impedimento definitivo da construção de barragens, ou qualquer estrutura de dimensão similar, na área do vale do rio Tua e na área classificada Património da Humanidade, que implique a destruição de qualquer troço da linha do Tua.

 

Assine e divulgue: http://www.petitiononline.com/tuaviva/petition.html

 

06 de Janeiro de 2010

O ministro das Obras Públicas vai ao Parlamento prestar esclarecimentos sobre a Linha do Tua. O requerimento apresentado na semana passada pelos Verdes foi ontem aprovado na comissão parlamentar de Obras Públicas, mas os deputados socialistas votaram contra. O Partido Ecologista chegou a acusar a EDP de arrogância por afirmar que não iria concretizar a alternativa ferroviária exigida na Declaração de Impacte Ambiental da barragem. Sobre este assunto, a deputada do PS Ana Paula Vitorino e ex-secretária de estado dos transportes, disse na comissão que “teria de ser encontrada uma nova solução de transportes para aquelas populações que, só em situação de impossibilidade, seria rodoviária”. Fonte: Brigantia
01 de Setembro de 2009

O deputado e candidato à Assembleia da República por Bragança, Mota Andrade, disse hoje que jamais algum governo avançará com transporte ferroviário no Nordeste Transmontano por falta de gente para rentabilizar o investimento.

"Nem o PS, nem ninguém. A ferrovia não pode ser para transportar quatro pessoas de manhã e quatro à tarde ou um cabaz de laranjas", disse num jantar de apresentação dos candidatos socialistas pelo Círculo Eleitoral de Bragança às eleições legislativas.

Questionado pelos jornalistas sobre se o comboio faria parte do programa eleitoral do PS, o candidato disse imediatamente que "não", reiterando que "ninguém pode gastar milhões e milhões para andar com um comboio a transportar duas pessoas de manhã e outras duas à tarde".

 

 

Fonte: Lusa

publicado por Lacra às 13:26
17 de Agosto de 2009

 Por sugestão de um leitor, deixo aqui um vídeo sobre o tempo em que a linha do Tua funcionava até Bragança.

 

 

Hoje, Bragança, é uma das únicas capitais de distrito da Europa que não tem qualquer ligação ferroviária. É, ao mesmo tempo, a única capital de distrito do país sem um quilómetro de auto-estrada.

12 de Agosto de 2009

Ontem, 11 de Agosto, durante a madrugada, um lamentável incêndio, com causas ainda por apurar, devastou duas carruagens Napolitanas, e parte do armazém de mercadorias, na estação do Tua. Algumas fotografias podem ser vistas no site do MCLT.

As carruagens Napolitanas, construídas em 1931 nas Oficinas Meridionais Ferroviárias de Nápoles – de onde o seu apelido – eram o estado da arte em matéria ferroviária à época, e assim perdurou durante décadas, por mérito próprio, e por comparação com escolhas desadequadas da parte da CP, que manteve um penoso anacronismo nas Vias Estreitas, com material circulante do princípio do século ou mais recente, mas todos com baixos níveis de performance e conforto. Estas carruagens serviram principalmente nas Linhas da PPF - Porto à Póvoa e Famalicão, e do Tua, sendo que a última composição que marcou de forma oficial o fim da Linha de Guimarães como Via Estreita foi formada por algumas destas carruagens. Foram ainda do último material circulante que chegou à estação de Bragança, celebrizando-se nas imagens captadas pela RTP na Noite do Roubo, enquanto içadas pela calada da noite para camiões.

22 de Abril de 2009

 O Partido Ecologista "Os Verdes" vai tornar público, hoje, o parecer que entregou no quadro de consulta pública da barragem do Tua.

A cidade de Bragança, como capital de distrito, foi escolhida para esta conferência do Tua. Desta forma, "Os Verdes" querem também demonstrar que consideram que o possível encerramento da Linha do Tua e os impactos da construção de uma barragem dizem respeito, não só aos concelhos ribeirinhos do Tua, mas a todo o distrito e a toda a região transmontana, pelas "futuras implicações profundas que terão no seu desenvolvimento futuro".

Na conferência estará Manuela Cunha, da comissão executiva do PEV, e Cláudia Madeira, candidata pelos "Verdes" ao Parlamento Europeu nas listas da CDU.



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