Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
19 de Abril de 2009

 

Chamam-lhe os bolinhos “CDS” e só a D. Mariazinha, como é conhecida em Freixo de Espada à Cinta, sabe a receita.

A história de D. Mariazinha e dos bolinhos de amêndoa começou quando há 52 anos veio viver para Freixo de Espada à Cinta. Natural do Porto, hoje considera-se “mais freixenista que tripeira”. O dom para a cozinha nasceu com ela, mas as mãos para a doçaria foram sendo trabalhadas ao longo dos anos.

“Comecei por aprender com uma senhora muito antiga, daqui de Freixo, que achava que ninguém fazia os doces como ela”, contou.
Os famosos “CDS” aprendeu-os em Freixo, mas quem a ensinou chamava-lhe “papos de anjo”. D. Mariazinha, no entanto, garante que “não tinham nada a ver com a receita tradicional de papos de anjo” e por isso, alterou-a.
A receita até pode parecer simples, “são apenas ovos, chila e amêndoa”. A confecção, essa, é segredo da casa e o nome “CDS” apenas um “acaso” que nasceu de um congresso com Freitas do Amaral.
“Depois do 25 de Abril de 1974, o CDS organizou um congresso no Porto e, na altura, levei uns bolinhos destes para o Freitas do Amaral”, recordou. Já de regresso a Freixo e com os bolos a ganharem fama, eram muitos os que questionavam o nome, talvez na tentativa de descobrir o segredo.
“Havia um médico que andava sempre a perguntar o nome dos bolos e como soube que eu tinha ido ao congresso, disse-me que lhes chamasse os CDS”.
Assim ficaram até hoje e nem os adversários de outra cor política lhe resistem. Mário Soares é um dos exemplos, “ainda o ano passado lhe mandei uma encomenda”, contou sorrindo.
D. Mariazinha ainda recorda o primeiro contacto de Mário Soares com os “CDS”.
“O doutor vinha a Freixo em propaganda, no pós 25 de Abril” e D. Mariazinha estava encarregue do almoço e da doçaria regional, “como ainda hoje acontece sempre que há visitas à região”. Curiosamente, Mário Soares parece ter “adorado” os “CDS” e nem quando soube o nome perdeu o entusiasmo pela especialidade.
“Eu não queria que lhe dissessem o nome, era uma altura complicada e ele era adversário do Freitas do Amaral, mas os mandatários dele não resistiram a contar”.
Diz a doceira que quando soube o nome dos ditos respondeu, “são muito bons e até vou comer outro que eu dos CDS até gosto”.
Desde então, as encomendas não pararam de crescer. São os “CDS”, as “castanhas”, os “arrepelados”, os “manuéis”, tudo doçaria antiga, à base de gemas de ovos e muita amêndoa. Depois há ainda quem confunda as “castanhas” com os D.Rodrigos, do Algarve, mas “esta é uma receita freixinista, muito antiga, ainda nem o Algarve era Portugal”, atestou a especialista, explicando as diferenças da massa das “castanhas” da “massapão”.
Embora as receitas sejam tradicionais de Freixo de Espada à Cinta, “há poucos que as saibam fazer como deve ser porque são massas muito trabalhosas”.
Por exemplo, “as castanhas dão muito trabalho a fazer”. Desde a partidela da amêndoa, ao descascar, até à confecção, “é como os serões da província”, mas “dá para eu me ir entretendo durante o ano”.
Outra das particularidades dos doces da D. Mariazinha é que “só levam a amêndoa de Freixo, que lhe dá um sabor peculiar” e nem sabe quantificar as centenas de quilos que usa durante o ano.
A ajudá-la nestas lides tem a filha que, embora viva no Porto, costuma vir até Freixo ajudar a mãe nas encomendas de doces.
 “São receitas muito antigas”, apontou, exemplificando com um bolo encomendado que “demora três dias a fazer e coze sete horas no forno”.
A curiosidade, segundo diz, é que “estes bolos surgiram como forma de aproveitar as gemas, já que as claras eram usadas para engomar a roupa”.
“As pessoas conhecem as receitas, mas não têm paciência”, desabafou, rematando que “são bolos feitos por amor”.
Curiosamente, é um amor que não está ligado à gula. Nem a D. Mariazinha nem a filha gostam de doces de amêndoa, “são gostos, não se discute...mas não os provo...”, contou sorrindo.


 

 

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