Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
07 de Fevereiro de 2009

 “Como cidadão, quero ser o homem comum que compartilha activamente dos momentos atribulados da colectividade a que pertence; como homem de letras, quero cumprir o meu dever de escritor, não atraiçoando, quer por conivência, dando um tom de compromisso à voz revoltada, quer por omissão, ficando neutro em casa.” Miguel Torga, 1951 Foi a ler a universalidade e coragem indelével de Miguel Torga que decidi que estas minhas palavras também não poderiam ficar em casa.

Num início de ano em que todos utilizam a torto e a direito a crise económica mundial e nacional para suporte de todas as conversas e justificação de todos os males, que o papão de 2009 vai trazer, percebi que há outras crises que esta pode esconder – crise de valores essenciais que não podem ficar por detrás do biombo, sobretudo, se atendermos ao facto que a conhecida organização norte-americana “Freedom House” acaba de publicar num circunstanciado relatório e que revela que o ambiente e a liberdade de expressão dos jornalistas se agravou no mundo inteiro! Mas mais grave é o facto de o mesmo relatório revelar que “a melhor situação ainda é a da Europa ocidental, apesar do declínio de liberdade em Portugal, Malta e Turquia.” Assim mesmo!

Na verdade este é um assunto sobre o qual se especula muito em Portugal e sobre o qual poucas atitudes se tomam. Se há países em que os Media são considerados o quarto poder, capazes de assumir as rédeas da verdadeira opinião pública, outros há, como Portugal, em que a comunicação social se assume resignadamente como o quarto do poder! Às vezes mesmo como a meretriz ao serviço do poder, e outras ainda, o que é mais grave, como a prostituta subserviente ao chulo do poder. É claro que nem sempre é assim.

Ainda há muitos homens livres, jornalistas capazes de honrar a sua carteira profissional, e órgãos de comunicação social cônscios e dignos do seu estatuto editorial, mas o contrário também é verdade. De resto, são poucos os que se atrevem a escrever em nome da verdade, chamando as coisas pelos nomes, ou, dizendo e escrevendo as realidades que incomodam os poderes instituídos, ou põem em causa o lustro a que os políticos e os administradores das instituições estão habituados a ter em cada dia, semana, ou mês que as suas carinhas larocas aparecem na dita comunicação social.

Quando assim acontece, os nossos políticos de pacotilha põem ao serviço os seus sequazes para executar a repreensão devida. Há de tudo e para todos os gostos, e quanto mais se caminha para o interior pobre do nosso país, maior é a dependência dos órgãos de comunicação social relativamente ao poder que a sustenta – há os que existem para servir o partido, há os que existem para servir os amigos, há os que existem para servir o director e seus prosélitos, e há ainda os que existem para aplaudir os caciques locais ou regionais. Se assim não se comportarem, e felizmente ainda os há nessa luta, os “senhores” do poder zangam-se, puxam dos efémeros galões e ameaçam com a ausência de apoio aos directores. Entretanto, estes revoltam-se e põem os jornalistas na formatura para lhes lembrar que a liberdade é apenas um eufemismo mais ou menos perverso e inimigo da sobrevivência.

Antes de Abril, ao tempo do lápis azul da censura, a liberdade de expressão era proibida de sair à rua, riscada das páginas, mutiladas antes de ver a luz do dia. Hoje, mais de três décadas depois da liberdade política ter chegado ao Portugal do século XXI, a liberdade de expressão sai para a rua sempre que os jornalistas querem, mas, a maior parte das vezes, com a condição de servir uma clientela, de não negar favores a outra, ou de apenas aplaudir os clientes do poder, sem direito a apontar debilidades ou impotências, muito menos tocar nos clientes que pagam a sobrevivência do negócio, ou então, sujeita-se a levar pancada de criar bicho, tal como qualquer prostituta de rua que se preze.

Por muito importante e poderosa que seja a força do dinheiro, por muito séria que deva ser considerada a crise económica mundial, antes, durante e depois dela, a crise da liberdade vai continuar a existir, as prostitutas de rua também, e a coincidente má sorte de ambas deverá, supostamente, manter-se. Madrugada adentro dou comigo a pensar em Torga, a vê-lo encher-me a alma de coragem, e a pensar que sorte a minha por ser pobre e ainda ter a liberdade de poder escrever num órgão de comunicação social que se quer livre.

publicado por Lacra às 06:12
clap, clap, clap, clap....
anónimo a 8 de Fevereiro de 2009 às 01:18
últ. comentários
obrigado Cris:)
Bem vinda :))
Helder Fráguas sofreu a perda da sua companheira, ...
Para mim e para muita gente a volta às adegas para...
Estou habituado na leitura de blogs on line, adoro...
me llamo fedra soy de santa fe argentina tengo 9 ...
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