Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
18 de Novembro de 2008

 Moncorvo não é só o positivismo transmontano da "txouriça", da posta, da farinheira, dos lagares e da pinga de estalo. Também há por lá uma equipa de futebol com fé na Taça e que reza pela pele do Setúbal. O Vitória que se cuide!

Em Moncorvo, já jogaram o F. C. Porto, num desafio particular, nos anos 1950, e também o Boavista, em 1971, num amigável acordado na transferência de Amândio Barreiros, um defesa central que saiu do clube de Trás-os-Montes para fazer carreira no Boavistão da década de 1970. Na quinta-feira da próxima semana, a cidade acolhe, finalmente, o primeiro desafio oficial com uma equipa de elite do futebol português. E o Grupo Desportivo de Moncorvo, da 3.ª Divisão, faz peito ao Vitória de Setúbal, com a ambição de fazer história e de chegar aos oitavos-de-final da Taça, o que seria um feito extraordinário para um clube que sobrevive na desertificação humana de Trás-os-Montes.

Oitocentos sócios não chegam para encher o estádio, baptizado com o nome do presidente do clube, José Manuel Aires. Para lotar os dois mil lugares sentados é preciso que dois terços da população da cidade (3000, em 2004) vão à bola. Ou que mais de um quinto da população total do município - 9408 almas, em 2004 (18741, em 1960) - decidam ir torcer pelo clube da Terra do Ferro. Para o jogo com o Setúbal, é certo, contudo, que o campo vai rebentar pelas costuras.

Os dois mil bilhetes (cinco euros para sócios) serão vendidos como pãezinhos, em Moncorvo e nas imediações. E já se pensa na visita de outro Vitória, o de Guimarães, que é o adversário sorteado para a equipa transmontana, caso arrede os sadinos. Nesse caso, o Vitória minhoto, outro emblema de tradição, será bem acolhido na hospitalidade transmontana. Mas o que o Moncorvo queria mesmo era um "grande, grande". Quem sabe se não o terá nos quartos-de-final?...

Portista ferrenho, José Manuel Aires gostava de ser anfitrião do F. C. Porto, mas sempre diz que "se viesse cá o Benfica, seria uma loucura". "Tinha de montar bancadas por dentro e por fora do estádio", diz o presidente.

Pelo que José Manuel Aires suspira mesmo é que algum canal de televisão se interesse pela transmissão do jogo e deixe nos cofres do clube receitas extraordinárias, que seriam uma botija de oxigénio para quem está habituado a contar todos os tostões e a gerir, com toda a parcimónia, um orçamento anual de cerca de 250 mil euros, suportado em patrocínios e subsídios da Câmara. "Não são bem subsídios, são contratos-programa", atalha Sílvio Carvalho, cioso da semântica. "É que esses contratos obrigam-nos, entre outras coisas, a assumir o pagamento dos salários dos funcionários e a zelar pela manutenção do estádio e do relvado", acrescenta o treinador, que, mais do que técnico, é um "manager" à inglesa.

Seja qual for o destino que lhe esteja reservado, o que o clube já fez este ano é um percurso excepcional. Deixou para trás três equipas do mesmo escalão - Farense (1-3), Serzedelo (3-1) e Peniche (1-3) - e prepara-se para desafiar o histórico Setúbal. E o nome e o tamanho do adversário não metem medo.

"Tenho consciência de que o Vitória tem outros argumentos, mas acredito sempre que posso ganhar", diz Sílvio Carvalho, contemporâneo de Gabriel e de Edgar Borges na equipa de juvenis do F. C. Porto, em 1969, e treinador do Moncorvo desde que arrumou as botas de futebolista, aos 28 anos. Hoje, aos 54, leva 26 épocas à frente da equipa da terra e ameaça obter um registo singular. "Só eu posso bater o recorde do Augusto Mata", diz Sílvio Carvalho, referindo-se ao treinador que esteve 29 anos a eito no Infesta.

O treinador também se entusiasma com a carreira na Taça, mas observa que a vida do Moncorvo é a terceira divisão. Uma realidade que diz ser a adequada ao clube, apesar do disparate geográfico que é jogar na Série B.

"Se, por um lado, jogar na Série B é bom, porque é a mais competitiva, por outro, é mau. Estamos a 30 quilómetros de Espanha e jogamos com o litoral e com os clubes do Porto. Preferíamos jogar na Série A, onde estão todas as equipas transmontanas. Para nós, seria o ideal, desde logo porque pouparíamos muito dinheiro em deslocações e que seria mais útil a investir no clube. E se os clubes da Madeira e dos Açores têm subsídios pela insularidade, por que razão nós não os temos, vista a nossa interioridade?", afirma e pergunta Sílvio Carvalho.

O clube calcula que gasta, por época, cerca de 25 mil euros em deslocações para os jogos no Grande Porto, quantia que dava para três meses de salários aos 21 jogadores do plantel. Os ordenados variam entre 400 e 1500 euros. E também aqui reside uma grande diferença para uma equipa de primeira, com o Setúbal. Outra diferença: em Moncorvo, ninguém se queixa de salários em atraso...

 

Fonte: JN

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