Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
28 de Outubro de 2010

Por antigos caminhos calcorreados, seguramente, há centenas de anos pelo homem, senão mesmo milhares, seguimos um grupo multidisciplinar de vários investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), por um pequeno troço de um grande percurso pelas Arribas do Douro, que, asseguram os especialistas, é uma das mais belas rotas de Portugal.

Os muros de granito emparedado seguram os terrenos que dividem as pequenas parcelas dos proprietários locais. São granitos que estão ali há uns largos milhares de anos, milhões, mais de 320 milhões de anos, assevera Elisa Preto Gomes, investigadora da UTAD. Surgem os afloramentos rochosos, bolas de pedra arredondadas aqui e ali, onde, inesperadamente, nascem, fortes, as carrasqueiras. E há ainda os zimbros, os carvalhos, os negreiros, as azinheiras, os freixos, vegetação típica de um clima mediterrânico de forte continentalidade.

João Bastos, um dos membros da equipa, especialista em Climatologia, explica a importância do troço: “todo o percurso permite diferentes paisagens sobre as Arribas do Douro e ao longo do Parque Natural do Douro Internacional. Não só o miradouro de S. João das Arribas, mas toda a paisagem envolvente, tornam este percurso um dos mais bonitos”.

Numa altitude que varia entre os 600 e os 800 metros, o Planalto Mirandês é a região de Portugal situada mais a interior da Meseta da Península Ibérica. “É por isso que os invernos são bastante rigorosos, com temperaturas baixas, geadas frequentes e alguma neve. Os verões são relativamente quentes e verifica-se uma grande amplitude térmica e, por isso, a grande variedade de vegetação”, apontou o especialista.

Pelo caminho, podemos observar momentos da vida no campo. Só o silêncio e a paisagem marcadamente agrícola, pontuada aqui e ali pelas vinhas.

Uma  nora de ferro ajudar a tirar água de poço num terreno lavrado por um velho agricultor vestido com roupas de outras décadas. O tempo parece não ter passado por ali. Com a mão sobre os olhos, observa com estranheza o grupo de gente por que ali passa e acena. Mais à frente, vemos outra nora, uma verdadeira nora à antiga, toda em madeira, uma relíquia dos utensílios agrícolas de outrora.

A presença de uns burricos mirandeses a pastar numa sombra motiva o alvoroço dos jovens estudantes. Todos param a saudar e a fotografar o belo espécime autóctone que, nos últimos anos, tem granjeado grande simpatia, fruto do trabalho da Associação de Protecção e Estudo do Gado Asinino (AEPGA).

Um momento para António Serôdio, investigador da UTAD, nos explicar a importância social de promover a prática do pedestrianismo e que está patente, desde logo, na troca de experiências e conhecimentos entre pessoas de diversas proveniências. Mas, tão ou mais importante, é o contributo que esta prática de andar a pé pelos antigos caminhos rurais traz para a manutenção desses percursos.

“A sua manutenção é importante, não apenas pela questão do acesso aos caminhos rurais, mas também em termos de manter os caminhos em uso, caso seja necessário para o combate a incêndios ou noutro tipo de situação”.

António Serôdio lembra, ainda, que as caminhadas constituem uma actividade física adaptada a pessoas de várias idades, sendo uma boa forma de “retirar os idosos dos centros de dia, promovendo o convívio e o exercício físico”. Mas, as vantagens são mais amplas. António Serôdio considera que a exploração de rotas pedestres pode ser um bom nicho de mercado.

“A nossa intenção é, também, motivar estes jovens estudantes para o empreendedorismo, há imensas potencialidades e vantagens na exploração deste negócio turístico”, considerou.

Continuando caminho, Elisa Preto Gomes chama a atenção para o contraste da paisagem: por um lado, as rochas mais xistosas, brandas e fáceis de partir; por outro, as rochas graníticas, difíceis de erodir. A explicação está nos complexos processos geológicos que ali ocorreram e que tornam as Arribas do Douro um dos locais mais importantes, em termos científicos, para a compreensão do Douro.

No miradouro de S. João das Arribas, um dos mais belos de todo o Planalto Mirandês, a paisagem é estarrecedora. É o “grande Canyon Ibérico”, uma expressão algo exagerada, até porque lhe falta o protagonismo do americano Canyon, mas que traduz bem a importância científica das Arribas do Douro.

“É aqui que podemos compreender que o rio Douro, esta bacia com esta configuração, nem sempre foi assim”, apontou Elisa Preto Gomes.

A investigadora explicou que o grande desfiladeiro rochoso surgiu de movimentos tectónicos que fizeram com o “pré-Douro” se ligasse a um lago interior que existiria na zona de Castela e Leão, levando ao esvaziamento dos sedimentos desse lago e ganhando a configuração actual.

Um processo muito complexo, aqui explicado de forma mais simplista, mas que se revela de grande importância geológica.

 

Quilómetros de percursos por assinalar

Mas mais do que este pequeno troço, o grupo de investigadores da UTAD tem vindo a fazer, desde há dois anos, o levantamento de várias centenas de quilómetros de percursos pedestres. Na zona de Miranda do Douro, uma das propostas apontadas visa a classificação e sinalização do caminho entre Paradela e Miranda do Douro, num total de 15 quilómetros.

Luís Quaresma, da área desportiva, explica que embora a proposta possa aumentar o grau de dificuldade, dada a extensão, é sempre possível percorrer apenas pequenos troços.

“Este é um percurso que é fácil de executar, não tem grandes desníveis. O piso é em terra batida e não tem grandes irregularidades. O seu levantamento foi feito desde Paradela até Miranda do Douro, num total de 15 quilómetros. Isso pode aumentar o grau de dificuldade, mas é sempre possível fazer apenas pequenos troços”, apontou.

Este trabalho do grupo de investigadores da UTAD foi feito em colaboração com Espanha e com outras entidades, sendo que a Associação de Municípios Ribeirinhos do Douro assumiu a sua chefia. Os investigadores portugueses concordam que, do outro lado da fronteira já se fez a marcação de muitos percursos, um trabalho que, do lado português, ainda é muito incipiente.

“Nós estudamos nove percursos de raiz, fizemos o seu levantamento e resta agora às entidades competentes proceder à sua sinalização. Do lado português ainda há poucos percursos implementados e marcados”, constatou Luís Quaresma.

Também Elisa Preto Gomes considera que, agora, é necessário aproximar os percursos das rotas existentes do lado espanhol. “Como será feito, vai depender muito das entidades no terreno que o possam fazer”, notou a investigadora, apontando que aquilo que gostariam de ver implementado seria uma grande rota desde Paradela até Vila Nova de Foz Côa, continuando pelo lado espanhol.

“O que se justificaria seria uma Rota das Arribas, junto ao rio e seus afluentes, aproveitando os antigos caminhos de contrabandistas, caminhos que as populações conhecem e que, hoje, alguns deles já nem estão acessíveis”, considerou Elisa Preto Gomes.

A responsável diz que valeria a pena reconstruir antigos percursos, sinalizá-los e disponibilizar a informação na Internet, aproveitando as potencialidades tecnológicas.

O trabalho tem sido feito, não só pelos investigadores como pelas várias entidades presentes no terreno, no entanto, continua aquém das potencialidades, como notou Ronaldo Gabriel, investigador da UTAD.

“Na região do Douro Internacional temos características de excelência para apresentar produtos deste género, mas ainda há muito que fazer para potenciar estes recursos”.

A expectativa é que os jovens estudantes fiquem motivados para, futuramente, se lançarem em projectos empreendedores, fixando-se na região e promovendo-a a vários níveis.

 



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