Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
07 de Setembro de 2010

O realizador Manoel de Oliveira esteve em Bragança, na semana passada, para rever o documentário rodado em Trás-os-Montes, em 1962, intitulado “Acto da Primavera”. Um filme que, como o realizador centenário recordou, o levou, na época, a passar uns dias na cadeia, às mãos da polícia política da ditadura de Salazar, a PIDE.

“Na altura, tive problemas com a PIDE, esta não era propriamente religiosa. Eu até estava doente, mas levaram-me para a PIDE e passei lá uns dez dias”, comentou.

O “Acto da Primavera” é um documentário sobre a celebração popular da Paixão de Cristo que marcou todo o cinema português. Intemporal, a obra é marcada pelo gesto teatral dos actores e pela palavra, sendo pela palavra que se vai à essência do próprio filme, como explicou o realizador centenário.

“A Primavera é a ressurreição. As flores morrem no Inverno e ressuscitam na Primavera. Assim, a ideia é colocada nas flores, na ressurreição”.

Esta vinda de Manoel de Oliveira à cidade de Bragança inseriu-se no ciclo de cinema “As Vozes do Silêncio”, uma iniciativa de António Preto, desenvolvida no Museu Abade Baçal, que visou mostrar ao público transmontano um conjunto de filmes rodados na região, dificilmente disponíveis no mercado.

Aos 102 anos de idade, Manoel de Oliveira não quis faltar ao evento, por uma questão de amizade, mas não só.

“António Preto é um amigo e um apreciador do meu cinema que compreende bem os meus filmes. Para um artista, qualquer um que seja, não há nada mais que o possa satisfazer o que a compreensão do seu trabalho”, apontou.

Para o programador António Preto, esta foi uma boa oportunidade para o público rever alguns dos filmes de referência do cinema português na presença do “maior artista português vivo”. A realizar um doutoramento sobre a relação entre a literatura e o cinema na obra de Manoel de Oliveira, António Preto considera a obra do realizador “excepcional”.

“É um cinema que propõe um mundo enorme de questões sobre a relação entre a literatura e o cinema. É um cineasta com um trabalho inesgotável, com uma obra ímpar”, considerou.

O ciclo “Vozes do Silêncio” apresentou um total de oito filmes produzidos na região transmontana e escolhidos de forma “criteriosa”. Todas as películas projectadas foram gravadas nas décadas de 60 a 90, um bom ponto de partida para a compreender a forma como o cinema do século XX contribuiu para a construção de um “imaginário transmontano” que nem sempre corresponde à realidade actual.

Grande parte dos filmes exibidos são de difícil acesso ao público em geral, pois alguns estão apenas disponíveis na Cinemateca Portuguesa. Ao mesmo tempo, o evento teve a particularidade de trazer à cidade alguns dos realizadores, dando ao público a oportunidade de debater com os cineastas a história de cada película.

Sobre o nome do evento, António Preto quis remeter para a reflexão de André Malraux num seu livro intitulado, precisamente, “As vozes do silêncio” e que aborda o impacto da musealização dos objectos que, descontextualizados, adquirem um novo campo semântico, um novo significado.

Ao mesmo tempo, Malraux reflecte o impacto da gravura e da fotografia na reprodução das obras de arte e na forma em como esses objectos artísticos são apresentados e dados a ver. No entender de António Preto e indo de encontro à teoria de Malraux, “a gravura e a fotografia deturpam os objectos”, sendo, por isso, que o responsável do evento defende que os filmes deveriam ter sido projectados em película.

“As condições técnicas não foram as ideais porque, infelizmente, não contamos com os apoios necessários para fazer as projecções em película. Dentro das limitações tentamos apresenta-los nas melhores condições possíveis”, explicou o responsável, frisando, no entanto, o apoio da direcção do Museu Abade Baçal.

Segundo António Preto, o apoio  de cerca de cinco mil euros por parte da câmara de Bragança teria permitido adquirir um equipamento para a projecção de filmes em 35 mm, mas, perante a impossibilidade, o programador limitou-se a comentar que “os silêncios são múltiplos e esta postura do poder autárquico faz parte do silenciamento”.



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