Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
22 de Julho de 2010

 

António Ferrão é professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e chegou ao Centro Hospitalar do Nordeste Transmontano há cerca de um ano para assumir a direcção do Serviço de Cirurgia.

Em entrevista, o médico cirurgião explicou as reestruturações que têm sido introduzidas e o seu porquê, apontando que não vale a pena ter serviços que não servem a população e que são apenas “fachada”

 

Podia começar por nos explicar que alterações é que foram feitas ao serviço de urgência médico-cirúrgica e o porquê?

 

António Ferrão: As alterações que foram feitas ocorrem porque os médicos estão de férias, mas os doentes de foro cirúrgico continuam a ser operados em Mirandela. Durante 24 horas por dia, todos os dias, a unidade tem um cirurgião de permanência na urgência como tinha até aqui. A única coisa que aconteceu é que no período das 14h00 às 24h00, em que havia a possibilidade de chamar um médico, (e diga-se, em abono da verdade, que isto só é possível se o médico aceitar, o que é grave pois temos de contar com as pessoas e não com boa-vontade), mas só nesse período e por falta de médicos, se houver necessidade da tal cirurgia emergente é que são transferidos para Bragança. No restante horário os utentes continuam a ser tratados em Mirandela. Isto não traz nenhum inconveniente para o doente.

 

Mas o presidente da câmara de Mirandela reclama que em causa está o conceito de urgência médico-cirúrgica. Diz mesmo que o que está a funcionar em Mirandela é uma urgência básica à qual faltam as especialidades que uma urgência médico-cirúrgica tem.

 

A. F.: Mas nunca teve! Por exemplo, um doente quando é operado, precisa de outras coisas que esse hospital tem de ter. Pode ter blocos operatórios, cirurgiões mas se faltar o resto, como ter uma equipa de enfermagem permanente, ter monitorização a tempo inteiro, unidades de cuidado intermédio ou de cuidado intensivo... e Mirandela não tem, nem nunca teve.

É uma visão utópica porque nem a unidade hospitalar de Bragança tem.

Por isso é que eu acho que é muito mau estarmos a dividir tão pouco, tão pouca gente por tantas capelas. Nenhuma ficará bem servida, é uma fachada. Os doentes só são bem tratados nos locais onde puderem ser tratados. Não é por ter uma urgência aberta, porque uma urgência aberta sem nada lá dentro...

 

“desde que estou cá, há um ano e meio, urgência e emergências, na Cirurgia, ainda não tivemos nenhumas. A probabilidade disso acontecer é muito baixa e ninguém pode pensar que pode estar numa equipa, a ganhar fortunas, para salvar uma vida por ano”

 

E podem ser bem tratados no Centro Hospitalar do Nordeste?

A. F.: Não tenho dúvida nenhuma. Não tenho eu, nem tem nenhum médico. Mas já por causa desta confusão política, tratei de pedir inspecções às pessoas competentes para darem pareceres porque o senhor presidente da câmara de Mirandela pode perceber de outros assuntos, mas de saúde não sabe rigorosamente nada.

 

Então acha que isto é tudo uma questão política?

A. F.: Sim, exactamente, não tem nexo nenhum. Posso dizer que o helicóptero do INEM é que é a verdadeira urgência de todo o distrito porque pode ir a Mirandela, a Carrazeda de Ansiães, a Miranda do Douro e rapidamente evacuar o doente para o sítio certo, que pode nem ser Bragança. Ter equipas de INEM nas unidades todas e um helicóptero é que é importante, dá segurança e salva muitas mais vidas do que qualquer urgência aberta.

 

Mas como explica que todo este problema se tenha levantado?

A. F.: O Centro Hospitalar do Nordeste tem falta de médicos e não é só por causa da urgência, é por tudo.  Este distrito tem obrigação de ter um conjunto de médicos para as várias especialidades que existem, mas não temos e não temos por causa dessas políticas que até agora vigoraram e que eram as políticas da minha capelinha, do meu hospital. Nenhum médico está para vir para um hospital concelhio, acha que alguém tem essa vocação? Os médicos são profissionais de saúde que querem trabalhar e ganhar dinheiro, mas em boas condições, porque o dinheiro não é tudo. Os médicos querem ter acesso à qualidade de trabalho e isso só se faz juntando as pessoas numa estrutura única.

 

“ os médicos devem ganhar dinheiro, não sou contra isso, só que devemos ganhar dinheiro à custa do nosso trabalho, não à custa de usurpar os lugares dos outros para ficarmos com tudo para nós”


Está a dizer, então, que estes problemas que se têm levantado publicamente, nasceram internamente?

A. F.: Muitas pessoas estavam aqui apenas para ganhar dinheiro. Eu acho que os médicos devem ganhar dinheiro, não sou contra isso, só que devemos ganhar dinheiro à custa do nosso trabalho, não à custa de usurpar os lugares dos outros para ficarmos com tudo para nós. Tive dificuldade em fazer algumas reformas porque tive de mexer no bolso das pessoas.

 

Mas isso esteve relacionado com a questão da urgência de Mirandela?

A. F.: Não. A questão de Mirandela está relacionada com o facto dos médicos estarem de férias. Agora, também lhe digo, desde que estou cá, há um ano e meio, urgência e emergências, na Cirurgia, ainda não tivemos nenhumas. A probabilidade disso acontecer é muito baixa e ninguém pode pensar que pode estar numa equipa, a ganhar fortunas, para salvar uma vida por ano. A saúde pública custa dinheiro a todos. Alguém está permanentemente a trabalhar num hospital, 24 horas por dia, à espera da hipótese remota de acontecer um sinistrado por ano? É ridículo.

 

“Havia médicos que ocupavam um lugar quase absoluto em relação aos colegas, isso não pode ser, somos todos iguais. Isso foi um trabalho árduo, foi o mais difícil”

 

Então e que reformas é que introduziu?

 

A. F.: Foram muitas, mas sobretudo por as pessoas a trabalhar em equipa, trazer os cirurgiões de Bragança para Mirandela e de Mirandela para Bragança, deixar as coutadas, distribuir o trabalho por todos. Havia médicos que ocupavam um lugar quase absoluto em relação aos colegas, isso não pode ser, somos todos iguais. Isso foi um trabalho árduo, foi o mais difícil.

 

Mas esses problemas de relacionamento devem-se a quê, em concreto?

A. F.: A dificuldade de relacionamento tem a ver com a rivalidade, com as capelinhas. Entre Mirandela e Bragança, em Macedo não temos esse problema, a rivalidade entre as pessoas e as populações, chocou-me. Pior que um Porto - Benfica em final de campeonato. É incrível como as pessoas se conseguem quase odiar, é muito difícil trabalhar assim.

 

“hoje vivemos numa espécie de paz aparente porque há instigações a todo o instante de pessoas que ainda querem deitar areia na camioneta, para ver se tudo volta atrás, em prejuízo do doente, mas em benefício pessoal”

 

Sentiu isso quando, há cerca de ano e meio, chegou ao Centro Hospitalar do Nordeste?

 

A. F.: E de que maneira! Não estou habituado a isso. Mesmo hoje vivemos numa espécie de paz aparente porque há instigações a todo o instante de pessoas que ainda querem deitar areia na camioneta, para ver se tudo volta atrás, em prejuízo do doente, mas em benefício pessoal.

 

Então foi mais difícil organizar as pessoas e pô-las a trabalhar em equipa do que organizar a estrutura hospital ?

 

A. F.: Sim, o mais fácil foi organizar a estrutura hospitalar porque o que estou a fazer não é nenhuma invenção, é o que se pratica na quase totalidade dos hospitais: é gerir pessoas, por as pessoas a trabalhar em equipas, organizar serviços, protocolos, todos os procedimentos serem universais.

 

"Aumentar o número de cirurgiões é fundamental, mas é preciso ir mudando mentalidades para que as pessoas não cheguem cá e não julguem que estão a mais, para que não sejam “corridos” pelos colegas, por assim dizer"

 

E o serviço ainda não funcionava assim, com procedimentos idênticos aos de outros hospitais?

A. F.: Não, era uma coisa notável. Uma pessoa deste distrito, para fazer uma biópsia da tiróide, tinha que ir ao Porto. Isto é que acontecia é que era mau e só se consegue resolver trazendo as pessoas para cá e ensinando-as. Mas foi difícil com o tipo de gestão que havia, quase uma gestão individual, muito caseirista.

 

E hoje em dia, acha que se pode comparar o Centro Hospitalar aos dos grandes centros situados no Porto ou em Lisboa?

A. F.: No que diz respeito ao Serviço de Cirurgia nós só não fazemos cirurgias que necessitem de cuidados intensivos porque não temos Unidade de Cuidados Intensivos, embora tenhamos médicos intensivistas. Também nunca faremos cirurgias que obriguem a um grande número de doentes por ano para se manter a tecnologia apurada, nomeadamente, a grande cirurgia hepática, isso não faremos nunca. Todos os outros tipos de cirurgia podem ser feitos aqui.

 

"temos que dar um passo fundamental: informar os de fora que aqui se fazem coisas boas e informar os de dentro que é preciso deixar vir os de fora"


E que balanço faz deste ano e meio de trabalho?

A. F.: Ainda temos muito para fazer. Fizemos a estrutura e temos que a organizar, nomeadamente em relação a Mirandela, onde a cirurgia de ambulatório ainda está no início da sua implementação. Falta limar arestas, corrigir erros, modificar procedimentos que estejam errados. Toda a formação em exercício é fundamental e não pode parar.

 

Vão tentar trazer mais médicos para o Centro Hospitalar?

A. F.: Sim, sim. Aumentar o número de cirurgiões é fundamental, mas é preciso ir mudando mentalidades para que as pessoas não cheguem cá e não julguem que estão a mais, para que não sejam “corridos” pelos colegas, por assim dizer.

 

Então nem sempre a falta de médicos está relacionada com o pagamento de um maior salário?

A. F.: Não é pelo ambiente, nem pelo dinheiro. É nitidamente porque temos que dar um passo fundamental: informar os de fora que aqui se fazem coisas boas e informar os de dentro que é preciso deixar vir os de fora. Não é fácil, não é nada fácil. É muito difícil uma pessoa chegar de fora e encaixar-se. Recebem-nos muito bem mas não passam daí.

 

Mas o sistema que está implementado em si, internamente, também é difícil de mudar.

A. F.: Espero que o Serviço de Cirurgia seja um exemplo para o resto do Centro Hospitalar para que, por todos, consigamos ultrapassar este estigma que é uma das coisas que mais impede as pessoas de virem para cá. Neste momento há médicos que já querem vir para cá porque as coisas se começam a modificar.



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