Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
10 de Junho de 2010

 

Na década de 60, graças ao projecto visionário do engenheiro Camilo de Mendonça, a cereja começou a assumir um lugar de destaque na economia de Alfândega da Fé, de tal forma que, o concelho chegou a ser dono de um dos maiores cerejais da Península Ibérica e a vender cerejas para a Ferrero Rocher, para a conhecida marca de chocolates “Mon Cheri”.

Hoje em dia, o município quer, no entanto, ir mais longe e fazer deste fruto um dos principais motores da economia através da sua múltipla utilização, quer seja na gastronomia, quer através do uso dos subprodutos, como os pés da cereja e os caroços.

Usando como lema a famosa frase de Lavoiser, “nada se perde, tudo se transforma”, a empresa municipal de desenvolvimento local (EDEAF), através de uma das unidades sedeadas, a Alfadoce, está a

aproveitar os caroços das cerejas para o fabrico de almofadas terapêuticas e os pés de cereja para o fabrico de chá. Estas “novas utilizações” assentam no conhecimento do uso tradicional que já era dado aos subprodutos da cereja e que se foi perdendo.

Os caroços de cereja são retirados do fruto que vai para as compotas e doces ali fabricados. Depois de lavados, são colocados a secar ao sol durante dois ou três meses e seguem, então, para o enchimento de almofadas que, aquecidas no microondas, ou colocadas no congelador, servem para aliviar as dores de tensões musculares, inflamações ou dores nas articulações.

Os pés de cereja são também lavados e colocados ao sol para utilização em chá cujas propriedades diuréticas e drenantes são conhecidas há décadas na medicina popular.

Tudo é feito manualmente por Ivanete Escobares, uma das trabalhadoras da Alfadoce. Ivanete diz que cada almofada demora cerca de uma manhã a fazer e leva centenas e centenas de caroços.

Cada peça está a ser fabricada manualmente e de forma personalizada para serem depois colocadas à venda, pela primeira vez, na Festa da Cereja de Alfândega da Fé, de 10 a 13 de Junho. As expectativas do sucesso que este produto possa vir a ter são muitas e Ivanete aponta até que estão preparados para vir a receber encomendas.

Na Alfadoce são ainda produzidos os típicos doces alfandeguenses – os rochedos e os barquinhos; e as compotas e doces de frutos locais, como seja, a cereja, mas também o morango, o figo, a abóbora, ou a castanha.

Segundo Libânia Rosa, gerente da Alfadoce, a maioria destes produtos é vendido para lojas gourmet, mas também é possível encontrar os doces à venda na região. 

Sobre a compota e o doce de cereja, a gerente confessou que a receita tem “um segredo” que as diferenciam do que é vendido no mercado.

“As compotas de cereja levam a nossa cereja local, açúcar e têm um segredo. Depois usamos ainda outros produtos naturais que fazem o mesmo efeito que os emulsionantes e estabilizantes”, contou, frisando que os doces não têm corantes nem conservantes.

 

 

 

Cereja na gastronomia

A utilização da cereja na gastronomia é outra das vertentes em que o município quer apostar. Actualmente, grande parte da cereja é vendida e consumida em fresco, no entanto, o fruto pode ter uma variada utilização em pratos, doces e bebidas inovadoras.

Isso mesmo tem vindo a ser mostrado pelo Chefe Marco Gomes, um alfandeguense, e por  Luís Américo Teixeira, dois grandes nomes da cozinha nacional que, durante a Festa da Cereja, vão demonstrar ao público as diversas aplicações gastronómicas do fruto. Um dos pratos já apresentados, antecipadamente, é o bife de vitela gratinado com queijo e doce de cereja, uma fusão agridoce surpreendente e deliciosa. Já para os mais gulosos, a proposta é gelado de cereja, uma receita que tem como principal ingrediente a cereja local. A utilização em doces, salgados ou bebidas é quase uma questão de imaginação e gosto. Exemplo disso é a bebida apresentada pelo Hotel SPA de Alfândega da Fé, o “cerejão”. António Luís explicou que se trata de uma bebida inspirada na famosa caipirinha brasileira mas que leva doce de cereja, lima, amêndoa amarga e gelo picado. Depois há também as versões sem álcool mas cujas receitas são “segredo”, ou não fosse o segredo a alma do negócio.

 

Aumentar a produção

Mas o que tem faltado à cereja de Alfândega da Fé para se assumir como um dos principais produtos impulsionadores da economia? O concelho conta com uma área de cerca de 100 hectares de plantação concentrados, maioritariamente, nas mãos da Cooperativa Agrícola local e em cerca de 15 pequenos e médios produtores.

Na década de 80/90, o concelho tinha um dos maiores pomares da Península Ibérica, com cerca de 300 hectares de cerejal em regime extensivo de sequeiro. Houve uma reconversão que diminuiu essa área para uns 60 hectares mas que, segundo Eduardo Tavares, presidente da Cooperativa, foi efectuada de uma forma muito “abrupta”.

“A reconversão foi feita de uma forma abrupta, ou seja, ao mesmo tempo e com uns 20 anos de atraso. Perdemos, durante dez anos, face a outras regiões, como o Fundão ou Resende, que ganharam dimensão e nome”.

A expectativa é que, dentro de dois ou três anos, os cerejais estejam em plena produção e que possam dar umas 150 toneladas de fruto, um número “muito bom” que permitirá afirmar melhor a cereja de Alfândega da Fé no mercado.

Apesar de não ter a denominação de biológica, a cereja de Alfândega é cultivada em modo de produção integrada, ou seja, é uma cultura sujeita a algum controlo, nomeadamente no que diz respeito à utilização de alguns pesticidas e tratamentos fitossanitários.

Durante a campanha da apanha, que dura até ao final do mês de Junho, são 25 os trabalhadores que correm os hectares de pomares, apanhando o fruto para a comercialização.

Este ano a produção também não atingirá o desejável devido às más condições climatéricas que se fizeram sentir.

“Temos uma quebra de 50 por cento da produção esperada num ano normal. O vingamento do fruto decorreu com condições climatéricas desfavoráveis e as geadas tardias, assim como a chuva, prejudicaram a polinização”, apontou Eduardo Tavares.

Ainda assim, a qualidade da primeira colheita é “muito boa” e não se fica nada atrás da cereja de outras regiões. Falta, sobretudo, valorizar o produto, algo que, no entender do presidente da Cooperativa, se “descurou” durante muito tempo.

Agora, o município pretende a qualificação do produto e está a tratar desse processo em parceria com a “Qualifica”. O que se pretende é criar a marca “cereja de Alfândega da Fé” e vendê-la no mercado sob a marca chapéu “Terras de Alfândega”

 

Confraria da Cereja e Painel de Provadores

Outra das estratégias de valorização da cereja passa pela criação de uma Confraria da Cereja e de uma rede de produtores que possibilite a aprendizagem de melhores práticas de produção e de comercialização.

Segundo Berta Nunes, presidente da câmara, para o desenvolvimento desta rede estão a ser efectuados contactos com Resende e com o Fundão e, futuramente, poderão vir a contactar grandes explorações de outros países, como seja a vizinha Espanha onde há grandes produções de cereja.

Perceber o que é comum e o que é diferente também é fundamental para a criação da marca “cereja de Alfândega da Fé”. A criação de um painel de provadores, à semelhança do que já é feito com o azeite, vai possibilitar isso mesmo, como apontou  Berta Nunes.

“Podemos melhorar os aspectos da produção, da comercialização e afirmar as diferenças que cada um tem e as características das diferentes cerejas”.

A grande prova da cereja de Alfândega será a festa em seu nome que se realiza já de 10 a 13 de Junho.

 

 
publicado por Lacra às 08:00
Que feira tão pobrezinha foi a deste ano... A todos os níveis. Organização, imagem de marca, publicidade. muito pouca gente, apresentação muito pobre dos stands e pior ainda a pouca presença de expositores, nem parecia que havia um certame, ao nível de espectáculos pode-se dizer que foi sem gosto e muito fraco.
Meteu dó a senhora Berta a limitar-se a falar num chefe de cozinha a toda a hora.
Definitivamente um fiasco este ano. Fica para daqui a doi anos...
Observador a 19 de Junho de 2010 às 19:32



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