Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
09 de Maio de 2010

Criação da Cooperativa Soutos os Cavaleiros, que calibra, embala e vende castanha, é um exemplo daquilo que pode ser feito para que afinal a agricultura não acabe, como muitos prognosticam, em Trás-os-Montes

 

O projecto teve a sua génese numa iniciativa da Rede Social do concelho de Macedo de Cavaleiros. O objectivo era ajudar os produtores de castanha a produzirem mais e melhor, ajudando-os a combater as doenças do castanheiro. Deste modo, a Rede Social pretendia dar também um incentivo económico a estes agricultores, através de uma aposta num produto que, na região, pode garantir, a nível agrícola, uma fonte de receitas importante.

Face ao desânimo dos produtores, causado pelas doenças que afectam estas árvores, a doenças da tinta e o cancro do castanheiro, Salomé Caturna, assistente social, e Paulo Silva, técnico florestal, puseram mãos à obra, para fazer chegar aos produtores investigações da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, ao nível do combate às doenças que destruíram muitos dos antigos soutos da regiao.  Fizeram várias acções de sensibilização, ou formação, para incutir nos produtores “as alterações que tinham que fazer com o objectivo de aumentarem a sua produção, melhorarem a qualidade da sua castanha e prevenir as doenças”, explicou-nos Paulo Silva.

Durante essas acções os técnicos deram-se conta de ou outro desânimo, não apenas o causado pelas doenças. É que, neste concelho, não conhecido pela sua produção de castanha, os produtores queixavam-se de que o produto não tinha rentabilidade, por isso não valia a pena continuar a investir, nem introduzir novas práticas.

Em 2005, quando iniciaram essa campanha de sensibilização, a castanha tinha sido paga nas principais freguesias produtoras a 50 ou 40 cêntimos, o que praticamente não compensa os custos de produção e isto, sem contar com a mão-de-obra.

Deste modo, nasceu a ideia de ajudar os produtores a vender melhor o seu produto. “Começámos a desenvolver vários contactos com empresas e instituições locais, Direcção Regional, pessoas em particular, para saber como é que os podíamos ajudar a comercializar a castanha. Chegámos à conclusão que só conseguiriam comercializar melhor, ou ter melhor preço pela castanha, se apostassem na qualidade e vendessem a castanha em conjunto”, referiu Paulo Silva.

Após várias iniciativas, como visitas a cooperativas já existentes, a explorações com novas práticas culturais, a empresas do sector, chegou-se à conclusão que era necessário fazer uma experiência piloto, com alguns produtores interessados. Em 2006 cerca de 25 produtores aderiram a vender a castanha em conjunto. Desde logo foram impostas algumas regras, que se têm mantido, como a separação da castanha por variedade, a calibragem, e a embalagem em lotes de três categorias, da “A” (a melhor, para vender em fresco), à castanha destinada sobretudo a transformação (categorias “B” e “C”). “Arranjámos um armazém, emprestado por um desses produtores, conseguimos através de uma candidaturas conjunta da Câmara e da DESTEQ (Associação de Desenvolvimento da Terra Quente) adquirir dois pequenos calibradores, pedir uma balança emprestadada de um dos produtores, e então juntámos a castanha”. Todo o trabalho, incluindo os carregamentos, a calibragem e a separação foi feito pelos produtores, pelas famílias e pelos técnicos envolvidos. No nesta última campanha, em 2009, e uma vez que a Cooperativa, entretanto constituída, continua a não ter capacidade financeira para contratar pessoal, algum trabalho foi feito por três funcionários, através de candidaturas ao Centro de Emprego. Entretanto, também no último ano, a Cooperativa conseguiu adquirir um empilhador.

Voltando a 2006, foram feitos alguns contactos com grossistas e, no início estranhavam o facto de estarem a ser contactados a partir de Macedo de Cavaleiros, que não é um concelho conhecido como local de produção de castanha. O que é facto é que, em algumas freguesias, esta é uma produção importante. Dos mais de 20 grossistas contactados nove foram ver a castanha e desde logo o escoamento tem sido sempre garantido, sem necessidade de armazenar castanha em grandes quantidades. Normalmente é embalada e logo vendida, sobretudo a castanha de categoria “A”. O ano passado, pela crise, e falta de procura do mercado internacional, a procura interna foi menor, “mas já temos uma carteira de clientes, de contactos, que nos permite salvaguardar sempre o escoamento e o melhor preço”, sublinhou Paulo Silva.

Os impactos deste iniciativa fizeram-se sentir desde logo, não só entre os produtores que se uniram para vender em conjunto. Os preços em h+geral aumentaram, mesmo para a castanha que não foi vendida fora desta organização informal. Isto porque, “os intermediários tiveram medo que esta iniciativa tivesse sucesso e depois perdessem os agricultores para este tipo de iniciativa”. Por exemplo, em Corujas (de onde são a maioria dos principais produtores), esse ano a generalidade da castanha foi vendida a 90 cêntimos quando nas outras freguesias foi cerca de cinco cêntimos mais baixo.

 

Criação da Cooperativa

Em 2006 o agrupamento de produtores informal que se decidiu lançar-se nesta aventura não tinha uma figura jurídica. Paulo Silva destacou que, após as orientações técnicas e outras, a iniciativa foi deixada ao critério dos produtores que, no ano seguinte os começaram a questionar sobre a existência ou não de uma nova campanha. “E nós decidimos marcar uma reunião com esse grupo de produtores e dissemos que eles é que tinham que tomar essa iniciativa de querer ou não querer avançar”, explicou. Os que já tinham participado responderam afirmativamente. 

Os técnicos realizaram de seguida algumas acções de divulgação, alargadas a outras freguesias que não tinham sido abrangidas no projecto inicial. Foram também realizadas acções de informação e divulgação na sede de concelho. Por último foi marcada, em Corujas, uma reunião aberta a todos os interessados, na qual os técnicos voltaram a explicar quais eram as condicionantes que a adesão a este projecto implicada, como a separação da castanha e mudança de hábitos culturais. Foi aberto um período de reflexão após o qual os que não queriam participar foram convidados a deixar a sala. Os que ficaram discutiram qual seria a figura associativa que mais se enquadraria nos objectivos conjuntos e decidiram a criação de uma Cooperativa, cujo nome , tal como os órgãos socais, foi escolhido pelo produtores.  “Ficaram nesse núcleo à volta de 30 produtores, que foram os sócios fundadores da futura Cooperativa Soutos os Cavaleiros”, constituída em Setembro de 2007.

E Outubro foi feita a primeira campanha já como Cooperativa, no mesmo armazém, cedido gratuitamente, tal a balança. “Mais uma vez correu muito bem. Aí tivemos preços finais bem superiores à media do que aqui na zona do concelho se praticou”.

Entretanto, e como muitos produtores que não pertenciam à Cooperativa tiveram, no último ano, dificuldades em vender a castanha, procuram associar-se. No entanto, os estatutos só permitem a adesão de sócios entre Janeiro e 15 de Outubro, de modo a que se possa programar bem a época e vender toda a castanha com a qual se está a contar. Outra das imposições estatuárias é que os novos sócios têm de ser propostos por uma pessoa já associada, que fica, de certo modo, responsável pelo facto do novo produtor cumprir as referidas normas da Cooperativa. Neste momento, a Cooperativa tem de 44 sócios e existem já novas propostas de adesão.

A Cooperativa costuma comercializar cerca de 107 toneladas de castanha por ano. Este ano com entrada de novos produtores está-se à espera de aumentar. No futuro o aumento será maior ainda, uma vez que muitos dos sócios têm plantações novas, que estão longe de atingir a produção média nacional. “O conjunto dos nossos produtores equivale a cerca de 200 hectares e a produção média, por hectare, costuma ser de uma tonelada. “Neste momento não atingem esse valor. Atingem mais ou menos 500 quilos, 600 quilos. Quando atingirmos a média da produção nacional, na nossa cooperativa, só com os produtores do ano passado chegaremos às 200 toneladas”. Por outro lado, na região, um souto em plena produção, ultrapassa as duas toneladas por hectare.

O presidente da Associação, Manuel Rodrigues, referiu que a criação da Cooperativa só perde por ser tardia, mas “mais vale tarde do que nunca”. É que, no concelho, fruto das doenças, muitos castanheiros morreram e criou-se uma espécie de “vazio produtivo” que só agora está a ser recuperado. “Os castanheiros começara a morrer, as pessoas desmotivaram, pensaram que não adiantada e houve aqui um vazio na ordem dos 20 anos em que não se plantaram castanheiros. Daí que as produções estarem abaixo do esperado. A continuarmos neste ritmo dentro de 15 anos temos aí uma produção muito mais elevada”, afirmou o presidente.

O objectivo é também que novos produtores, não só do concelho, como de concelhos vizinhos, adiram de modo a aumentar a quantidade comercializada que permita a auto-sustentabilidade da Cooperativa. “Teremos de chegar perto das 500 toneladas, para que tenha viabilidade económica. Neste momento, depende muito dos apoios que tem”, explicou Paulo Silva. Actualmente a Cooperativa tem apoio dos sócios e da Câmara Municipal, ao nível de recursos humanos, como o próprio Paulo e a Salomé Caturna.

Os fundadores e os técnicos têm consciência de que a implantação da cooperativa iria crescer lentamente, não só pelas condicionantes impostas aos produtores, mas também porque “existem muitos interesses locais, relativamente à castanha”, o que “dificulta o processo de adesão de novos sócios”. Segundo Paulo Silva, alguns dos produtores estão ainda à espera de ver se resulta.

Com a construção do armazém próprio, na zona industrial de Macedo de Cavaleiros, para deixar de usar o armazém do presidente da associação, por empréstimo, acredita-se que muitos passarão a acreditar que este é um projecto para seguir em frente.

O armazém deverá ter apoio de um programa comunitário e vai ser construído e dois lotes. Se tudo correr bem, em 2011 o equipamento deverá estar apto a funcionar. Segundo Manuel Rodrigues, a previsão do investimento neste espaço anda na ordem dos 140 mil euros.

Nesta primeira fase armazém garantirá só a calibragem. “Nós queremos avançar com a transformação”, referiu Paulo Silva. Nessa altura será construído um novo modulo, que permitirá a transformação e armazenamento. A grande aposta de futuro é exportar para o mercado externo. É que, até aqui “ainda só pulámos os ajuntadores”. Se a Cooperativa conseguir exportar salta “mais dois intermediários o grossista e a empresa exportadora. Assim, o produtor vai ganhando margem de lucro”.

Entretanto avançou-se já, a nível de experiências ainda, para a criação de novos produtores, derivados da castanha, como a compota e o licor.

Outro dos objectivo, a concretizar já próxima campanha, é a comercialização do produto com a Denominação de Origem Protegida (DOP) Castanha da Terra Fria, uma certificação que existe desde 1994, sem que, até ao momento, tenha sido comercializada castanha sob este símbolo de qualidade. “Não sei se vamos conseguir, mas vamos fazer todos os possíveis, nem que seja para certificar 100 quilos”, disse Pulo Silva.

 

Novas práticas

Nos primórdios desta iniciativa esteve um compromisso assumido entre técnicos e produtores: “nós ajudávamos a vender, mas eles tinham que mudar as práticas culturais”, referiu Paulo Silva.

Há práticas, como a mobilização dos terrenos, que estão muito enraizadas e são difíceis de combater. No entanto, já alguns produtores apostaram na compra de destroçadores para controlar a vegetação espontânea, em vez de lavarem as terras. No início, e porque “o castanheiro é uma planta de hábitos, a produção pode baixar um pouco, mas depois recupera”, afiança Paulo Silva. Ainda assim, esta é daquelas práticas mais difíceis de combater.

Há outra, como técnicas de poda que impliquem a redução de feridas na árvore para que fique menos susceptível ao cancro, que estão a ser mais fáceis de introduzir. Já foi organizado um curso de formação de podas, em que o essencial foi transmitir a ideia que é necessário fazer podas mais regulares e mais ligeiras. Outra das práticas a introduzir é fazerem-se análises ao solo para só depois fazer a fertilização adequada. “O hábito era comparem um adubo indicado por quem o vende. Muitas vezes gastam demasiado dinheiro em adubos que não necessitam e depois outros que faziam falta, com outros nutrientes, não são aplicados”. Foram também feitas experiências de fertilização foliar, ou seja feitas por pulverização nas folhas da árvore. Esta fertilização tem vantagem de ser absorvida de imediato, enquanto a adubagem pode fazer efeito só no ano seguinte.

 

Fonte: Mensageiro Notícias

Foto retirada do site Mensageiro Notícias



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