Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
23 de Abril de 2010

Feito o estrago na economia dos EUA em duas bolhas financeiras consecutivas - a de 2000/02, das dot.com; a de 2007/09, do imobiliário e dos empréstimos predatórios sobre activos artificialmente elevados -, Greenspan está entediado e lança o desafio ao Nobel da Paz: o que é que faz mais estragos ao euro? A concretização plena do contágio ou a mãe-natureza? Quem acertar ganha a mesa.

Andava Alan Greenspan e ‘entourage' satisfeitos da vida com o avanço na aposta - a maquilhagem da banca dos EUA já borrou na Grécia - e eis que das entranhas da terra desperta um vulcão islandês de nome impronunciável. E atinge a aviação europeia, que aterra durante uma semana e acumula prejuízos de biliões de euros. Al Gore parece vencer a mesa. Mas Greenspan, que não gosta de perder nem a feijões, contra-ataca: ligue-se ao Presidente do FMI e apontem-se os canhões à segunda presa: Portugal. Ou sai da União Monetária ou o euro está condenado. O dólar é a moeda do mundo. Portugal está na bancarrota.

A quilómetros da jogatana, filma-se "Pare, escute, olhe", sobre a extinção da linha ferroviária do Tua, uma das três mais belas da Europa, ameaçada pela barragem que a inundará. Recuamos a 1987, e Mário Soares afirmava que a interioridade pesava em Trás-os-Montes como uma condenação, o comboio não era apenas a viabilidade económica, era o serviço público às populações isoladas, a história e o património. Frame me 2009, José Sócrates e António Mexia vão lançar a primeira pedra da barragem do Baixo Sabor e comentam: "o que falta aqui é cimento" (PM) - "Está quase", reage Mexia. E pessoas? Vem a barragem do Tua, dá-se uns tostões aos agricultores e ficam à lareira à espera da morte? "Querem matar os velhos mesmo à fé danada" - ira de uma transmontana que aproveita o metro de superfície enquanto o há. Aquele país não é para velhos, é para ninguém, é para a quota máxima. Ali, sim, há bancarrota.

De regresso à mesa de jogo, e como terminou o expediente, juntam-se Timothy Geithner (Secretário do Tesouro) e Lawrence Summers (Director do Conselho Económico), do grupo anti-regulação criado anos antes por Greenspan, hoje os homens fortes da administração Obama. Al Gore questiona: até onde estão dispostos a ir para ganhar a aposta? À boca pequena, Geithner diz que o euro valorizado não interessa a ninguém.

Alheios à aposta, os europeus fazem filas intermináveis nas estações de comboios, talvez não seja de ignorar a ferrovia, talvez o TGV seja um investimento público credível, o Sud Express sai de Lisboa cheio de turistas e não de emigrantes que fogem da crise. E em Trás-os-Montes, à beira Tua, o sr. Abílio, gestor "honorário" do apeadeiro da Ribeirinha diz para a câmara: "Vou morrer, mas não sei quando. Acredita?".

Acredito. Temos de redefinir o progresso. Destruímos uma identidade por uns quilowats de energia da barragem do Tua. Destruímos economias e moedas por uns quantos egos, que mudam mas não vão a lado nenhum. 
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Marta Rebelo, Jurista

 

Fonte: Diário Económico



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