Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
15 de Abril de 2010

 

O projecto é inovador e está a ser aplicado, pela primeira vez, a nível nacional, na cidade de Bragança. Oito jovens institucionalizados na Casa do Trabalho (Patronato) experimentam, pela primeira vez, a vida a sós, ou melhor, a quatro, dividindo dois apartamentos no centro da cidade. Três profissionais acompanham o seu percurso, olhando de “longe” as dificuldades e prestando apoio e aconselhamento.

O grande objectivo é ajudar estes jovens a definir um projecto de vida e a inserirem-se no mercado de trabalho, como explicou Hélder Sousa, gestor do projecto e responsável pelo grupo de jovens.

“A entrada destes jovens para o projecto é muito consciente pois já têm uma maturidade e idade significativa. São jovens que têm uma experiência de vida muito grande, para chegarem onde estão já passaram por muitas experiências e dão muito valor à vida. Lutam, têm um projecto de vida definido e não desperdiçam tempo em grandes aventuras pois daqui a uns anos terão de entrar na vida activa e não andam aqui a perder tempo”.

Esta foi uma iniciativa que, segundo Hélder Sousa, surgiu de uma “necessidade extrema” de dar resposta aos anseios e necessidades destes jovens, todos eles maiores de 18 anos. É que a lei prevê a maioridade, (18 anos), como a idade limite para estar num Lar de Infância ou Juventude. No entanto, a realidade é bem diferente e, salvo raras excepções, a maioria dos jovens acaba por permanecer nas instituições até entrar no mercado de trabalho. A “solução”, ainda assim, não é a ideal e justifica a necessidade deste projecto.

“Permitir que eles continuassem no Lar de Infância e Juventude seria estar a impedir o crescimento destes jovens pois teriam de se sujeitar às mesmas regras que são impostos a todos, retirando-lhes a liberdade que já precisam”, explicou Hélder Sousa.

Como a iniciativa é pioneira, ainda só existem os chamados “acordos atípicos” com a Segurança Social. Ou seja, a Segurança Social atribui a cada jovem uma bolsa, a rondar o salário mínimo, para que eles possam fazer face às despesas da casa e do dia-a-dia. Estes acordos devem ser negociados anualmente, depois de feita a revisão do projecto de cada um deles, mas não devem ultrapassar os três anos.

No fundo, a estes jovens é dada uma “injecção de responsabilidade e autonomia” que têm de saber gerir da melhor forma pois, se assim não fosse, cada um estaria por si próprio a lutar sozinho.

O Diário de Bragança foi conhecer o dia-a-dia de quatro destes jovens que já vivem sozinhos num apartamento arrendado, no centro da cidade de Bragança. Carlos, David, Ricardo e Fernando, são todos maiores de 18 anos. Todos eles estudam e têm já um percurso bem definido, com os olhos postos no futuro.

Um deles, David Correia, estudante do Instituto Politécnico de Bragança, assume-se, presentemente, como moderador do grupo. Ao longo de três meses será ele que responderá perante o gestor do projecto e é a ele que cabe assumir as responsabilidades sobre o que aconteça na ausência do gestor (Hélder Sousa).

David tem ainda nas mãos a responsabilidade de organizar o grupo de forma a que o tempo que cada um dispõe seja aproveitado da melhor maneira. É a ele que cabe a tarefa de decidir, em conjunto com o grupo, a lista de tarefas, como seja as compras para casa, o pagamento das despesas (renda, água, luz, gás) ou as limpezas.

 

“Esticar” o dinheiro até ao final do mês

Com bolsas que rondam o salário mínimo nacional, (450 euros mensais), este grupo de jovens tem muitas contas a fazer à vida. A renda, paga pelos quatro, é de cerca de 300 euros aos quais têm que somar as despesas de água, luz, gás, alimentação, entre outras.

Não é uma “maravilha”, como se possa, à primeira, pensar. Dos quatro jovens, três deles estudam no ensino superior e um no ensino secundário, num curso profissional. Destes, dois deles estudam fora de Bragança, em Mirandela e no Porto, pelo que têm de somar às despesas as deslocações semanais, bem como as despesas escolares.

Ainda assim, estes jovens conseguem chegar ao final do mês com algum dinheiro. “Nem sempre, mas às vezes conseguimos”, assume Carlos Sequeira. A viajar semanalmente para o Porto, Carlos explica que à bolsa atribuída para o projecto, soma-se ainda a bolsa de estudos, bolsa essa que serve também para pagar as propinas do ensino superior.

“Vive-se bem porque temos cabeça”, atira. “Nós trabalhamos e fazemos a nossa parte neste projecto que passa, em primeiro lugar, pelo nosso crescimento”.

As maiores dificuldades sentidas, até ao momento, não passam pela gestão dinheiro mas antes pela gestão do tempo.

“Todos nós passamos o dia fora de casa, temos actividades curriculares e extra curriculares, actividades sociais, entre outras”, conta Carlos.

As actividades domésticas são, por isso, aquelas que “roubam” mais do tempo destes jovens. Não porque tenham alguma dificuldade em desempenhá-las, pois como recordaram, durante o tempo que viveram na Casa do Trabalho tiveram uma preparação prévia.

 


 

“Além de cursos de cozinha, tínhamos outras actividades que nos preparam para fazer aquilo que é necessário fazer numa casa”, apontou Carlos Sequeira.

Assim, o único “problema” foi mais ao nível das refeições: “quando cozinhávamos nos acampamentos éramos uns 20. Aqui somos quatro, é complicado”.

A questão das compras também trouxe algumas dificuldades iniciais, como contou Ricardo Albino, o “benjamim” do grupo.

“No início tinha algumas dificuldades porque temos de trazer o que todos gostamos”.

O “segredo” para encontrar o equilíbrio e a harmonia está na ligação que os quatro jovens têm entre si e que os faz “funcionar” como uma verdadeira família.

“Felizmente temos uma grande ligação entre nós, que já vem da Casa do Trabalho”, apontou.

Mas se na Casa do Trabalho a única responsabilidade que tinham era a de interagir com os outros jovens, hoje tudo mudou. “Aqui temos a responsabilidade de cuidar do que é nosso, é a nossa casa”.

O responsável do projecto considera, no entanto, que o balanço, até ao momento, tem sido muito positivo. Depois de um primeiro mês de adaptação, estes quatro jovens já entraram num processo rotineiro e têm conseguido fazer uma boa gestão do tempo e da liberdade.

“É complicado porque eles não estavam habituados, nem a maioria dos jovens está pois têm um suporte familiar por detrás. Neste caso, eles estão por conta deles, têm apenas o suporte moral que é a minha presença”, constatou Hélder Sousa.

Um suporte que os jovens comparam a uma “espécie de colchão fininho” que, apesar de tudo, existe e está presente. 

publicado por Lacra às 09:00



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