Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
28 de Janeiro de 2010

 A Associação de Desportos de Combate de Macedo de Cavaleiros vai levar seis atletas ao campeonato regional de kickboxing, que se realiza já no dia 6 de Fevereiro, em Celorico de Basto. Aqui serão apurados os que irão participar no campeonato nacional e a amostra transmontana dá garantias de qualidade com três campeões nacionais a representar em força Macedo de Cavaleiros, a única localidade que, ao longo dos anos, tem vindo a apoiar esta associação.

Quando criou a Associação, oficialmente em 2006, Luís Durão, o mestre, não contava chegar a 2010 com resultados tão positivos: em cinco anos os atletas já correram todo o país com várias exibições, participações e resultados que não espelham as inúmeras dificuldades com que lutam. Com cerca de 30 praticantes e com escola inscrita na Federação Portuguesa de Kickboxing e Muay-Thai, desde 2004, a Associação já conquistou vários campeonatos regionais por equipas, nos primeiros, segundos e terceiros lugares, e vários palmarés individuais.

A persistência, dedicação e esforço está entranhado no espírito de cada um dos atletas e é nessa força que se apoiam para continuar a lutar, dentro e fora do “ringue”.

Com vidas paralelas, são muitos os sacrifícios que estes jovens fazem para competir e chegar mais longe.

“Temos de fazer muitos sacrifícios e chegamos a por dinheiro do nosso bolso. Muitas vezes, os atletas fazem directas para competir porque não há apoios sequer para ficar num hotel”, contou o mestre.

Ainda que sem o mesmo tipo de apoios que as grandes escolas do litoral, Luís Durão tem desportistas dedicados que adoptaram o lema da modalidade: disciplina, dedicação, humildade, lealdade, carácter e auto-controle.

 

Campeão, “por acaso”

É o caso, por exemplo, de Franclim Fernandes, com 32 anos. Natural de Mogadouro, só já depois dos 20 e muitos anos é que Franclim teve oportunidade de experimentar a modalidade, quando já vivia e trabalhava em Macedo.

“Conheci o mestre numa festa de aniversário de um amigo e foi quando tive contacto com a modalidade. Quis experimentar. Nunca tinha tido essa oportunidade”, contou.

Desde os primeiros treinos até hoje, Franclim tem apostado na persistência para chegar cada vez mais longe. Em 2008/2009 alcançou o seu primeiro título de campeão regional do Norte, em Light-Contact, na categoria sénior, -74 quilos. O Light-Contact distingue-se do Full Contact por não permitir o K.O.. As técnicas são executadas sem interrupção e com controlo da potência apenas acima da cintura. A pontuação é atribuída no final do combate por avaliação dos juízes.

Nesse mesmo ano, Franclim conquistou ainda o título de campeão nacional de Light Contact e, em 2009/2010 conseguiu chegar ao terceiro lugar no Open da Associação de Kickboxing  de Lisboa (AKL). No mesmo ano, mais um título: vencedor do Torneio de Natal de Light-Contact, na categoria de sénior, -74 quilos.

Apesar dos palmarés, é com humildade que Franclim olha para o seu percurso desportivo e quem não souber que está perante um campeão da modalidade, também não ficará a saber pelo atleta.

“Quem viu e sabe, sabe. Quem não viu, não é por mim que fica a saber”, diz com simplicidade.

Uma carreira desportista também não está a ser equacionada. Com um trabalho que lhe ocupa praticamente o dia todo, Franclim tenta treinar “sempre que possível” e conta com a compreensão do patrão para poder ir aos campeonatos. Se assim não fosse, “seria um problema”.

Mais do que um desporto qualquer, o campeão assume o kickboxing como uma actividade que lhe traz as vantagens de qualquer outra modalidade e, acima de tudo, a amizade e convívio de inúmeros atletas da região.

 

Mulheres na luta

Tânia Afonso tem 18 anos de idade e pouco mais de um metro e 55 de altura. De sorriso aberto,  a tímida Tânia não deixa transparecer a lutadora em que se transforma assim que calça as luvas.

Com apenas 16 anos, alcançou o título de vice-campeã regional e do Norte em Light-Contact, -60 quilos. Em 2008/2009 chegou a campeã regional, na mesma categoria. Venceu ainda o Ladies Open e tornou-se campeã nacional. No ano seguinte, a lutadora venceu ainda o Open AKL, mas já nos seniores.

Quando começou a praticar a modalidade, nunca lhe passou pela cabeça chegar tão longe. A família nem sequer achava muita “graça” ao desporto que escolheu praticar. Com “muito treino e dedicação”, Tânia chegou aos palmarés enchendo de orgulho os amigos, a família e a localidade de onde é natural – Carção, no concelho de Vimioso.

“As pessoas sabem que tenho dedicação por este desporto e que pratico por gosto e não por violência. Não gosto de violência”, contou.

Violência também não é algo que agrade a Clicia Queiroz, praticante da modalidade há apenas cinco anos. Foi também um “acaso” que a fez entrar na “luta” e ganhar quatro campeonatos regionais e quatro campeonatos nacionais. Um “acaso” e muita dedicação e força de vontade para treinar ao final do dia, durante cerca de duas horas ou mais.

Desde 2004/2005 que Clicia “colecciona” títulos, tendo chegado a campeã regional do Norte em Light-Contact, na categoria de seniores, +65 quilos, quatro vezes, em 2005, 2006 e 2007. A atleta ganhou ainda três campeonatos nacionais, na mesma categoria e, em 2008, chegou ao título de campeã nacional de Full-Contact, na categoria sénior -70 quilos. O Full-Contact distingue-se do Light-Contact por combinar a técnica com a potência e força. Nesta categoria, as lutas vencem-se por pontos, K.O., desclassificação, abandono, inferioridade física ou técnica.

São precisos “treinos duros e intensos” para ganhar “resistência”. Clicia conta com o apoio da família e dos amigos, mas estes assumem o receio de a ver “magoada” ou com alguma marca de combate.

“Eles têm algum medo que apareça algum dia para trabalhar com alguma marca”, contou, mas o desafio e a vontade de ir mais longe ajudam-na a superar esses pequenos receios.

“Não é fácil alcançar os títulos mas gosto de puxar por mim”, confessou.

 

Um desporto de competição

Tendo este desporto por arte as técnicas de punhos e pernas para técnicas ofensivas e defensivas, é erradamente que, muitas vezes, também por “culpa” do cinema e dos filmes de acção, o kickboxing é associado à violência e até às lutas de rua. No entanto, quem pratica a modalidade com pessoas credenciadas e respeitando os cânones da Federação Nacional, obedece a valores muito claros que negam a violência.

Quando encarado como modalidade competitiva, o kickboxing é mesmo dos desportos que mais tem crescido a nível mundial, “com muitos atletas portugueses a chegar aos títulos europeus e mundiais”, conforme apontou o mestre Luís Durão.

O mestre aponta ainda as mais-valias deste desporto para a coordenação, equilíbrio, aumento da capacidade cardio-respiratória, força, auto-controlo, auto-confiança e auto-estima, bem como concentração, mesmo quando a modalidade é praticada sem qualquer carácter competitivo.

“O objectivo deste desporto é a competição, mas pode ser praticado apenas para manutenção física”, explicou, adiantando, no entanto que, “alguns treinos são um pouco pesados, sobretudo a partir dos 35 anos”.

Acima de tudo, é de notar o espírito desportista que prevalece dentro da Associação, apoiada unicamente pela câmara e pela junta de freguesia de Macedo de Cavaleiros. Como equipa, a Associação de Desportos de Combate de Macedo de Cavaleiros pode orgulhar-se de ter alcançado o título de campeã regional por duas vezes, na categoria de Light-Contact, seniores, bem como o título de equipa vice-campeã regional de kickboxing Full Contact (2008/2009). Ainda como equipa, a Associação alcançou vários títulos de campeã e vice-campeã regional nas categorias de seniores, cadetes, iniciados, juvenis e juniores. 

No dia 6 de Fevereiro seis dos atletas da Associação irão competir no Regional, modalidade de Light-Contact, seniores, para o apuramento para o Campeonato Nacional. São eles: Tânia Afonso (-55 quilos); Clicia Queiroz (+65 quilos); Hélder Ferreira (-74 quilos); António Félix (-63 quilos), Daniel Cláudio (-84 quilos) e Franclim Fernandes (-74kg).

São alguns dos melhores atletas que com muito sacrifício têm alcançado grandes conquistas nacionais mas que, ainda assim, são menos reconhecidos que algumas equipas de outras modalidades distritais.



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