Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
09 de Novembro de 2009

Martim, Luís, Steve, Carlos e Eduardo - os nomes estão afixados num quadro, numa sala da Escola EB de Vinhais. São crianças que sofrem de autismo, cada uma delas com problemas diferentes dentro do espectro da doença. Na sala de ensino estruturado da Escola EB de Vinhais cada um deles tem um espaço que os ajuda a organizar o dia-a-dia em rotinas, quer seja através de números ou através de cores. Depois de completarem as tarefas indicadas devem seguir todo o “caminho” indicado através de simbologias e terminar na área da brincadeira.

É assim todos os dias e faz parte de uma metodologia americana direccionada para crianças com autismo que o Agrupamento de Escolas D. Afonso III quis aplicar, em parceria com a câmara de Vinhais e com o apoio da Direcção Regional de Educação do Norte.

O projecto é pioneiro a nível nacional e visa ajudar as crianças com autismo a desenvolver competências especificas ao nível da aprendizagem, do comportamento, da interacção social, e da comunicação compreensiva e expressiva. Como? Através da focalização dos “pontos fortes” destas crianças: pistas visuais.

“Toda a sala está estruturada de forma a que as crianças tenham pistas daquilo que vão fazer no seu dia-a-dia”, explicou Celmira Macedo, uma das docentes responsáveis.

O autismo é uma perturbação do desenvolvimento que nem sempre é detectada à nascença. Por norma, só a partir dos dois ou três anos de idade é que a doença é despistada sendo que dentro do autismo existem depois quatro patologias diferentes que “pedem” diferentes intervenções. Quanto mais cedo for feita uma intervenção, melhores serão os resultados.

Em Vinhais trabalham neste projecto duas docentes, três terapeutas e duas auxiliares de acção educativa. A escola e os pais são chamados a participar activamente e a aceitar com normalidade a diferença. As cinco crianças estão, por isso, integradas em turmas e, consoante a necessidade, frequentam a sala de ensino estruturado aonde chegam acompanhadas pelo “amigo-tutor”.

Celmira Macedo explica que o “amigo-tutor” é uma criança da mesma turma que acompanha o menino autista à sala e que regressa depois para brincar com ele.

“A brincadeira é algo muito importante para trabalhar o relacionamento porque estas crianças com autismo refugiam-se numa espécie de mundo paralelo e inacessível”.

Este “mundo” das crianças autistas representa um verdadeiro desafio para os pais, sobretudo se não houver uma intervenção precoce. Exemplo disso é o caso de uma criança de 11 anos com autismo puro cujos pais nunca tiveram qualquer tipo de apoio para lidar com este problema.

“Em casa é a criança que manda. Grita, bate palmas frequentemente, mete a roupa na máquina, desfaz as camas. São comportamentos que na escola conseguimos reduzir em 90 por cento mas que se mantém em casa”.

 

A formação e o acompanhamento dos pais é, por isso, outra das importantes vertentes deste projecto educativo e que é complementado com a Escola de Pais, já em funcionamento em Bragança.

Manuela Rocha, mãe de uma das crianças com autismo, já frequentava a Escola de Pais, um local onde pessoas com as mesmas problemáticas encontram apoio e aconselhamento. No seu entender, a sala de ensino estruturado vem dar uma resposta mais concreta e explica porquê: “estas crianças precisam de regras e também de sequências que permitam organizar o seu dia-a-dia sempre com as mesmas rotinas. Precisam de se localizar sempre no espaço e no tempo, o que vão fazer, o que fizeram... Têm essa necessidade porque caso contrário sentem-se perdidos”.

O projecto arrancou com três crianças de Vinhais e duas do concelho de Mirandela que frequentam aquele espaço ao abrigo de um protocolo estabelecido entre as duas autarquias e a escola. A autarquia local prontificou-se, desde início, a dar todo o apoio necessário, remodelando o espaço e fazendo a aquisição dos materiais necessários.

Ao todo foram investidos cerca de dez mil euros, “um valor pequeno quando comparado com os objectivos que o projecto segue”, adiantou Roberto Afonso, vereador da Educação.

Os pais concordam: “este espaço faz falta em todos os lugares onde houver um menino com autismo”, afirmam.

A criação de espaços direccionados para crianças com autismo ou para crianças com outro tipo de necessidades especiais é da competência das escolas e dos municípios. Alcídio Castanheira, coordenador da equipa de apoio às escolas do Nordeste, Terra Fria e Arribas (antigo Centro de Área Educativa), lança, por isso, o repto a outros municípios e escolas para que dêem mais atenção a este tipo de carências. “Quando estas iniciativas surgem nós apoiamos sempre”, adiantou.

O coordenador admite que no distrito há algumas carências ao nível do autismo mas, no que diz respeito à  educação especial, o coordenador regista avanços notáveis. No distrito existe já uma rede estruturada de apoio e há já um quadro de recursos humanos especializado para dar resposta a estas questões.

 

Carla A. Gonçalves



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