Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
23 de Novembro de 2009

Os Cursos de Especialização Tecnológica (CET’s) do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) estão a levar dezenas de jovens à vila de Mogadouro. Actualmente, são 45 os alunos que frequentam os dois cursos disponibilizados, na área de Secretariado e Assessoria Administrativa e na área de Desenvolvimento de Produtos Multimédia, e o objectivo futuro é aumentar e consolidar a oferta. Na abertura do ano lectivo, oficializado na semana passada, Sobrinho Teixeira, presidente do Politécnico, assumiu esse desejo tendo em vista a promoção do desenvolvimento regional através da qualificação dos transmontanos.

“A grande batalha que o IPB vai travar é a de fazer a qualificação dos portugueses e, sobretudo, dos transmontanos e nordestinos. Eu não quero que no futuro haja uma nova vaga de emigrantes desqualificados. Podem ser uma vaga de emigrantes, mas vão ser qualificados porque estando qualificados estão, naturalmente, defendidos e, muitos deles, vão estar capacitados para induzir o desenvolvimento da região”, apontou.

O IPB iniciou os CET’s em Mogadouro no ano passado, com dois cursos: Desenvolvimento de Produtos Multimédia, que se manteve este ano a funcionar; e Treino de Jovens Atletas, um curso que funcionou apenas o ano passado com 15 alunos e com uma taxa de sucesso de 100 por cento. Neste segundo ano, o IPB optou por desenvolver na vila a formação em Secretariado, um curso que é actualmente frequentado por 30 alunos, o máximo permitido por lei.

“O curso de Secretariado teve o máximo possível de alunos. Havia mais pessoas inscritas mas não puderam entrar”, confirmou João Henriques, vice-presidente da autarquia.

Desde o ano passado que a câmara se juntou ao IPB para consolidar o ensino superior naquela vila. Os alunos têm ali boas instalações, residência estudantil, e uma série de equipamentos desportivos e culturais ao seu dispor. Factores que, no entender de Sobrinho Teixeira, fomentam o “espírito de academia” e justificam o investimento no ensino descentralizado, embora não em todos os concelhos, conforme explicou.

“O IPB deve ter uma política pró-activa de abranger a região e de retirar as pessoas de algum amorfismo face à formação e qualificação, mas não me parece que isso possa ser feito ao nível dos doze concelhos do distrito, por falta de recursos da instituição, porque iria banalizar o que é hoje um CET, porque se iria perder o espírito de academia e, ao mesmo tempo, porque há um conjunto de infra-estruturas que é necessário disponibilizar e que iriam ter menor produtividade por se dirigirem a um menor número de alunos”.

 

Uma diversidade de alunos

Os CET’s são cursos frequentados, normalmente, por alunos que procuram uma especialização tecnológica, um contributo para a sua área profissional, seja para o exercício da profissão que já têm, seja para o exercício da profissão que gostariam de vir a ter.  No entanto, estes cursos são também procurados por alunos que ainda não concluíram o secundário e que procuram entrar na faculdade. É o caso, por exemplo, de Samira Cortês ou de Liliana Carvalho, ambas provenientes de Cabo Verde. Tiveram conhecimento do curso através da Internet e viram uma boa oportunidade para entrar no ensino superior e fazer uma licenciatura.

“Em Cabo Verde não é tão fácil estudar”, contou Liliana Carvalho. Com 21 anos, a jovem cabo-verdiana tem já definido o seu caminho futuro: “vou fazer o CET de Secretariado e seguir Educação Social. Quando acabar pretendo regressar ao meu país e trabalhar lá”.

Samira, a conterrânea que conheceu em Trás-os-Montes, também vai seguir o mesmo rumo e enveredar por Educação Social para depois regressar a Cabo Verde.

A adaptação das duas jovens tem sido fácil. “Não é muito diferente”, diz Samira Cortês. “Com excepção do clima, que é muito mais frio, não é muito diferente, as pessoas são muito boas e acolhedoras, a comida é parecida com a nossa e temos sido muito bom tratados”, adiantaram.

Menos fácil, por outro lado, foi a adaptação de Tânia Ribeiro, proveniente de Amarante. A jovem confessa ter-se sentido “assustada” à chegada à vila, pois estava “habituada” a uma cidade mais movimentada. Semanas depois, no entanto, a experiência tem-se revelado positiva.

“Estou a gostar muito e pretendo seguir para o ensino superior. A dinâmica com os trabalhadores-estudantes é muito boa e ajuda-nos a encarar o curso de outra forma, são pessoas com mais experiência”, apontou.

Mas não são apenas os jovens saídos do secundário que pretendem continuar os estudos. Luís Pires, de Izeda, tem 25 anos e estava a trabalhar quando decidiu regressar à escola. Teve de mudar-se de malas e bagagens para Mogadouro mas, hoje em dia, já tem perspectivas de continuar os estudos na área da informática e programação e conseguir, assim, uma “mais-valia” para regressar ao mercado de trabalho.

“Hoje em dia, sem um curso e sem uma licenciatura, torna-se complicado. Há poucas oportunidades”, apontou.

Mas para quem pediu o estatuto de trabalhador-estudante e se encontra plenamente inserido no mercado de trabalho, a hipótese de continuar no ensino superior também não é colocada de lado. Eliodora, com 52 anos, a trabalhar no Agrupamento de Escolas de Mogadouro, iniciou o curso de Secretariado este ano. A trabalhadora-estudante confessa que o esforço é “enorme” e que exige uma adaptação dos horários permanente, mas os planos passam pela continuidade no ensino superior.

“Porque não? É um sacrifício enorme mas vale a pena, não só a nível profissional mas também pela valorização pessoal”.

 

“Não vimos aqui dar diplomas”

A vontade de querer prosseguir os estudos que é comum a muito dos alunos que frequentam os CET’s é vista como um factor positivo, um objectivo alcançado pelo IPB. No entanto, tal não significa que haja qualquer espécie de “facilidades”, como apontou Conceição Martins, directora da Escola Superior de Educação.

“É nossa missão deslocalizarmo-nos e o IPB tem feito isso, o que exige o esforço permanente de trabalhar à distância e um maior esforço dos professores. De qualquer forma, não vimos  aqui dar diplomas, vimos dar formação e temos esperança que as pessoas queiram continuar e evoluir os seus conhecimentos”.

É bom que exista este tipo de iniciativas numa região com algum desemprego, são boas para os jovens mas não só, existem mais pessoas a aproveitar estas oportunidades para consolidar ou aumentar alguns conhecimentos.
Emprego Bragança a 23 de Novembro de 2009 às 19:18



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