Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
19 de Novembro de 2009

 Os protagonistas do filme/documentário “Pare, escute e olhe” tiveram, pela primeira vez, a possibilidade de ver o resultado de mais de dois anos de filmagens obtidas pelo realizador Jorge Pelicano, entre Bragança e o Tua.

No passado sábado, centenas de pessoas marcaram presença nas duas sessões da película que mostra o abandono da linha do Tua, mas também quis chamar a atenção para o lado humano. Jorge Pelicano admite que se trata de um filme “parcial”, porque “acabei por ficar muito tocado com a solidão das pessoas e o abandono a que esta região tem sido votada nos últimos anos”, conta o reporter de imagem da SIC.

Fernanda vive numa estação abandonada. Abílio Ovilheiro, ex-ferroviário, vive numa estação activa, autêntico sabedor de notícias da região Pedro Couteiro, activista, um acérrimo defensor dos rios. Jorge Laginhas, escritor transmontano, conduz-nos às entranhas e beleza do vale. São apenas alguns dos vários protagonistas do filme.
Berta Cruz, utilizadora frequente do comboio, necessita do transporte para ir ao médico ou simplesmente comprar um litro de leite, gostou do filme e reitera a sua defesa da linha do Tua, porque “faz falta aos pobres”, disse.

João Batista também protagoniza, na película, uma acesa discussão sobre os benefícios da linha do Tua em detrimento da barragem do Tua. Depois de ver a sua prestação no filme, renova a sua tese: “a barragem não presta para nada só vai servir para nos tirar as nossas terras”, disse no final do filme com cerca de hora e meia.

No final das sessões, os protagonistas do filme não escondiam a satisfação de participarem activamente neste documentário, e reiteram a necessidade de reabrir a linha do Tua, que está parcialmente encerrada, entre o Cachão e o Tua, desde Agosto de 2008, altura em que um acidente causou uma morte e dezenas de feridos.

José Silvano, autarca de Mirandela e defensor da continuidade da linha do Tua, considera que o filme “é um bom instrumento” para defender esta causa, mas alerta para a necessidade de “ser prioritário conseguir que os próprios transmontanos sejam unidos na defesa deste património do vale do Tua”, explica.

Um mês depois da sua estreia, o filme/documentário “Pare, Escute e Olhe” rodou, em Mirandela. A película realizada que defende a preservação da linha do Tua já ganhou seis prémios em dois festivais de cinema e vai passar a estar em diversas salas de cinema, a partir de Janeiro do próximo ano.

 

O filme

Tendo  a  linha  do  Tua  como  fio  condutor, entre  Bragança e o Tua, “Pare, Escute, Olhe” comporta  duas  realidades: troço  desactivado e  o  troço  activo. No primeiro,  o comboio  já  não  circula,  os  autocarros  que  vieram  substituir  os comboios  há muito que  desapareceram,  aldeias  sem  um  único transporte  público, isoladas. No  troço activo,  o  anúncio  da  construção  de  uma  barragem  no  Foz  Tua, encaixada  num património  natural  e  ambiental  único,  ameaça  o  que  resta  da centenária  linha.

O  documentário  começa  com um recuo  temporal  para  ajudar  a  perceber  as  causas do despovoamento  e  as  medidas  tomadas  em  torno  da  questão  da  via-férrea  do Tua: as  promessas  políticas,  o  encerramento  da  Linha  do  Tua  entre  Bragança  e Mirandela  (1991),  o  “roubo”  das automotoras  pela  calada  da  noite  (1992),  o  fim do  serviço  público  dos  transportes  alternativos.  

Quinze  anos  depois,  em  2007,  no  troço desactivado, as  aldeias  estão  isoladas  e despovoadas.  Durante  os  dois  anos  de  filmagens  (2007  a  2009),  no  troço  activo, sucessivos  acidentes,  o  anúncio  da  barragem,  a  incúria  dos  responsáveis  na manutenção  da  linha,  marcaram  os  acontecimentos.  

“Pare,  Escute,  Olhe”,  é  um  documentário “interventivo e assume  o  ângulo  do povo para  traçar  um  retrato  profundo  de  Trás-os-Montes”, conta o realizador.  Por  isso  a história,  não tem propriamente  um  personagem  principal,  mas  vários:  utilizadores assíduos do comboio  que  necessitam  do  transporte  para  ir  ao  médico  ou simplesmente comprar  um  litro  de  leite,  um  activista  defensor  da  linha,  um escritor transmontano  que  nos  conduz  às  entranhas  do  vale  do  Tua,  um  ex-ferroviário que vive  numa  estação  activa,  uma  autêntico  sabedor  das  notícias  da região.

A  acção  desenrola-se  em  Trás-os-Montes, Lisboa (centro  de  decisões  do  poder central) e Suíça, um bom exemplo de  rentabilização  e  aproveitamento  das  vias-férreas  para  o  turismo  e  serviço  às  populações.

 

Manifesto defende vale do Tua

Os diversos movimentos e organizações que sempre defenderam a manutenção da linha do Tua renovaram a sua confiança após o recente estudo da comissão europeia que arrasa o plano de barragens a implementar pelo Governo português. Para além disso, o filme/documentário “Pare escute e olhe” pode ser um instrumento importante nesta luta. Aliás, no passado sábado, aproveitando a exibição do filme, em Mirandela, os diversos movimentos começaram a recolher as primeiras assinaturas de um manifesto pela preservação do património do Vale do Tua, onde é denunciado o abandono pelo poder central do Nordeste Transmontano, bem como as consequências nefastas para a região e as fracas contrapartidas para o país com a construção da barragem de Foz-Tua

O manifesto apresenta até propostas para o futuro sustentável daquele vale e da linha férrea que passam por melhores condições da via, introdução de comboios turísticos, aproveitamento das estações para criar lojas de produtos regionais e a reabertura da linha entre Mirandela e Bragança, bem como o seu prolongamento até Puebla de Sanábria.

 

Texto: Fernando Pires in Mensageiro Notícias

 



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