Dia-a-dia de um distrito rural, doze concelhos e meia dúzia de pequenas cidades encravadas nas montanhas mais a norte de Portugal
21 de Outubro de 2009

 

Desfazer e voltar a construir com os mesmos materiais – parece impossível, mas não é. Chama-se bio-construção e, embora o conceito seja novo, assenta nas mais antigas técnicas usadas pelos antepassados na construção de casas. O conceito aposta no uso de materiais sustentáveis, que possam ser reutilizáveis e que tenham um baixo impacto no meio ambiente e nas próprias pessoas que habitam as casas.

Vera Schmidberger é uma adepta deste conceito. Arquitecta de formação, Vera esteve ligada ao Centro da Terra, uma associação que estuda e difunde estes métodos de construção. A maioria das casas portuguesas referenciadas em estudos ligados a este tema apontam para construções do género na zona de Aveiro mas não em Trás-os-Montes. Foi, por isso, uma surpresa quando Vera constatou que a casa de família que pretendia reconstruir, estava assente em materiais como barro, areia, saibro, madeira e cal.

“Julgava que ia ser muito difícil mexer nestas paredes mas afinal são completamente recicláveis. Tenho aprendido imenso, os métodos de construção são muito sólidos e muito bem feitos”, contou.

Há dois meses a trabalhar na obra, Vera conta que tem dado uso a praticamente todos os materiais, desde a pedra às madeiras. Surpreendida com o uso do barro na antiga casa dos sogros, Vera colocou-se no terreno e cedo descobriu o antigo forno de telhas e o local onde era retirado o barro. A arquitecta descobriu ainda várias outras construções no Planalto Mirandês que usavam adobes e taipas (terra compactada), pese embora não haja estudos que façam referências disso.

Ainda assim, foi com facilidade que Vera encontrou quem ainda se lembrasse de ver fazer adobes e que até soubesse como eram feitos à “moda antiga”: “tinham eiras onde, com recurso à tracção animal, pisavam o barro para que incorporasse a palha e ficasse uma massa. É como se faz em qualquer parte do mundo”.

Vera queria usar adobes na reconstrução e deitou mãos à obra, literalmente. Depois de encontrar barro e areia, procurou palha ceifada, à maneira antiga também. Arranjou-a na aldeia, num antigo estábulo onde esteve mais de 30 anos. Fez algumas experiências para testar o traço e a resistência e procurou alguém que estivesse interessado em ajudá-la a produzir uns milhares de adobes. Manuel, agricultor de profissão e ainda familiar da arquitecta, quis aprender e disponibilizou-se a ajudar. Numa “cortinha” emprestada, perto da casa em reconstrução, deram início ao fabrico de adobes. A maioria deles foi fabricada no Verão, já que a secagem tem de ser feita ao sol.

Essa é aliás a grande diferença entre os adobes e os tijolos – é que o adobe seca ao sol, o que permite manter as características de absorção do barro e permite a sua reutilização. Quando o barro é cozido deixa de ser reutilizável e de absorver a água.

Outro dos materiais de baixo impacto a utilizar são as argamassas à base de cal hidratada, areia e argila.

Em nenhuma das fases de construção está pensado o uso de materiais como cimento, ferro ou tijolos, com uma única excepção. Vera acedeu a colocar uma cinta de betão no cimo das paredes, por uma questão de segurança: “as paredes ficam melhor consolidadas e o peso da cobertura é melhor distribuído”.

A concessão feita pela arquitecta é a “prova” que não é uma “fundamentalista”, como explicou.

Nada contra o betão ou o cimento, Vera aponta apenas o dedo ao “abuso” com que estes materiais têm sido usados na construção e levanta dúvidas quanto ao tempo de vida dos mesmos, já que têm pouco mais de cem anos de utilização.

“Estamos a gastar tudo quanto temos sem pensar em quem vem a seguir quando há pequenas coisas que podem fazer toda a diferença ao nível da qualidade de vida humana e da própria sustentabilidade do planeta”.

Outro dos problemas que preocupa a arquitecta é o impacto que estes materiais têm no meio ambiente e até na saúde das pessoas. O cimento, por exemplo, é queimado a temperaturas muito mais elevadas que a cal, enquanto que o ferro é uma matéria-prima de elevado custo e não renovável.

Mas não só, a cal, além de não necessitar de tanta energia, é um material que, depois de aplicado nas paredes, absorve o CO2. Já os adobes têm uma capacidade de armazenamento térmico incomparável aos tijolos. Ou seja, com pequenas mudanças de atitude é possível preservar o meio-ambiente e poupar, a longo prazo, na factura energética. 

No entender de Vera estamos a criar graves problemas ambientais porque temos atitudes incorrectas. Ao mesmo tempo, há estudos que indicam que há materiais que são correntemente usados na construção de hoje em dia e que podem ter influência no aparecimento de doenças respiratórias.

Por isso, a sustentabilidade “começa na concepção”.  “Começa por pensar nas pessoas que vão viver nas casas e que não devem estar sujeitas a respirar formol e outros componentes químicos”.

Mas, hoje em dia, raras são as casas que não levam na sua construção ferro, betão, cimento, esferovite, entre outros materiais. E quando são necessárias intervenções ou reconstruções neste tipo de casas, “sobra apenas lixo”.

Em Portugal, e no Nordeste Transmontano em particular, ainda haverá muita resistência à construção sem recurso a cimento ou a betão armado. Vera admite mesmo que essa é uma das grandes dificuldades. Mesmo o responsável da obra, Ramiro, mostra alguma resistência aos “métodos” de Vera.

A trabalhar há 39 anos, Ramiro está, pela primeira vez, a trabalhar numa obra em que não usa maioritariamente o cimento, betão e ferro.

“É mais ou menos a mesma coisa que construir com os materiais actuais, mas o cimento seca mais rápido e com estes materiais há sempre o receio de não deixar a estrutura segura”, explicou.

Ainda assim, Ramiro salienta que o resultado final será muito melhor, sobretudo ao nível do isolamento térmico.

Vera já se contenta com esta “primeira conquista” pois, segundo afirma, não tem sido fácil alertar para os problemas que podem advir do mau uso de inúmeros materiais fabricados a partir do petróleo e de outras matérias.

Este texto não revela muito profissionalismo e respeito pela ética jornalística. Além de ser copiado (na íntegra) de um jornal local ainda é inspirado num excelente trabalho saído há dias no Público (http://jornal.publico.clix.pt/noticia/20-10-2009/o-adobe-de-trasosmontes-baralhou-os-manuais-18013538.htm#). Lamentável!
Joana Carvalho a 22 de Outubro de 2009 às 17:28
Cara Joana, o texto não é copiado na íntegra de um jornal local, tem direitos de autor e eu como autora tenho direito de o publicar na íntegra na internet. Segundo, não foi inspirado no excelente trabalho do Público, pelo contrário, foi realizado exactamente na mesma data que a reportagem do Público, no entanto, com outra perspectiva e sem acesso, infelizmente, à documentação a que a jornalista do Público acedeu.
Lacra a 23 de Outubro de 2009 às 09:54
Dou os parabens á autora do artigo, por mostrar ao publico em geral, que existem varias formas de reconstruir casas sem o recurso do cimento que altera a imagem da casa transmontana! E dou também os parabéns á arquitecta Vera pelo seu empenho em manter as caracteristicas originais da casa! Obrigado!
Isolamento Termico a 3 de Março de 2010 às 14:07



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